Subtilezas com a máxima importância

Um cliente pediu-nos a revisão de um texto já traduzido de inglês para português. De acordo com o cliente, a tradução não apresentava propriamente erros, mas, considerando sobretudo tratar-se de um texto para crianças, não apresentava a qualidade linguística suficiente. Ou seja, como um tecido gasto, via-se o inglês à transparência.

Arregaçámos as mangas com entusiasmo. Embora seja um trabalho delicado, de atenção a subtilezas, tendente para o demorado e exigente de paciência, é também um desafio extraordinário à capacidade de domínio da língua materna, com que pode aprender-se muito e concretizar-se mais ainda.

Vejam alguns exemplos.

encourage

Encourage

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Incentivar

“Encourage” é uma palavra muito usada em língua inglesa, especialmente em textos que referem crianças. Não pode considerar-se errado traduzi-la por “encorajar”; ambas as palavras significam o mesmo. Mas os Portugueses, quando estão a falar entre eles, não dizem habitualmente “Vou encorajar a minha filha a estudar mais prometendo-lhe uma recompensa.” Nem do ponto de vista linguístico é a nossa primeira escolha, nem do ponto de vista cultural costumamos associar o sentimento de coragem a este tipo de situações. Preferimos, neste contexto, usar o verbo “incentivar” (cujo sentido nuclear é “estimular”) ou mesmo “entusiasmar”. Logo, embora a tradução de “encourage” por “encorajar” esteja correta, não é a tradução certa para este contexto.

Da tradução de “class” por “classe” pode dizer-se o mesmo: é correto, mas não acertado, porque usamos a palavra “turma” para referir o que em língua inglesa se refere por “class”. E o mesmo acontece com “lesson”, que pode traduzir-se por “lição”, mas pelas mesmas razões se deve traduzir por “aula”.

A tradução de “to make an appointment” é um pouco diferente, porque teremos sempre de nos afastar um pouco mais da letra. A primeira tentação será traduzir por “agendar”. Mas, se se tratar de uma consulta médica, embora “agendar uma consulta” não esteja errado, não corresponde aos nossos hábitos linguísticos. Porque, normalmente, “agendamos reuniões”, mas “marcamos consultas”.

Estes casos e muitos outros demonstram também que, apesar da crescente automatização do mercado de tradução, o conhecimento humano está ainda mais habilitado a fazer traduções de qualidade.

Ângela Santos