Saída à irlandesa

Não sei se já repararam, mas a expressão “saída à irlandesa” começa a cristalizar-se na linguagem comum. Caso se prolongue a discussão sobre se Portugal deve ou não deve optar por um programa cautelar após o fim do resgate da Troika, talvez se comece a ouvir a mesma expressão em situações paralelas.

A expressão “saída à irlandesa” foi provavelmente construída sobre a memória da expressão “saída à francesa”, que significa sair de algum lugar sem se despedir nem se fazer notar. Mas o significado da nova forma de “sair” não é este. A Irlanda concluiu o programa de resgate da Troika recusando a possibilidade de ser ajudada, na fase seguinte, por meio de um programa cautelar. Considerando que esta ajuda implicava certa concessão de autonomia pela Irlanda, a recusa de ajuda é vista como um ato temerário de independência. É este o sentido que vejo cristalizar-se na expressão “saída à irlandesa”.

Se houver consolidação deste sentido na expressão, se esta não cair simplesmente no esquecimento, depois da decisão sobre a efetiva “saída à portuguesa”, poderemos vir a usar a expressão “saída à irlandesa” noutras situações. Por exemplo, se estiver a aprender a andar de patins e a certa altura resolver dispensar o apoio do instrutor, contra a opinião cautelosa deste, é capaz de ouvir dizer: “Ena! Isso é que é uma saída à irlandesa!”

Ângela Santos