A realidade dos pokemón GO

Com a febre do Pokémon Go, ou dos pokemongos, como prefere Ricardo Araújo Pereira, saltou para as notícias e escritos diversos uma expressão que me tem intrigado, na relação com o que pretende designar. Refiro-me à expressão «realidade aumentada», que, à letra, deveria referir uma realidade tornada maior, por «extensão, volume, quantidade, intensidade, grau etc.» (estou a citar o dicionário Houaiss). Ora… eu nunca joguei aos pokemongos (não tenho nada contra, atenção!), nem nenhum outro jogo de «realidade aumentada» e, neste meu estado de ignorância sobre tal experiência, ponho-me a pensar na relação entre a designação («realidade aumentada») e a coisa designada (os tais jogos). Ponho-me a pensar no que poderá corresponder a uma «realidade maior» do que… a realidade.

Segundo vejo nas fotografias que os jornais mostram, o que fazem os senhores do Pokémon Go é usar uma imagem da realidade e sobrepor-lhe imagens criadas, sons etc. Certamente por nunca ter jogado, não consigo compreender como pode o resultado desta operação ser descrito como uma «realidade maior»…

Com a ajuda da equipa da Letrário, soube que «realidade aumentada» é a tradução de «augmented reality», expressão cunhada, em 1990, por Thomas P. Caudell. O que um tradutor de língua materna inglesa poderá confirmar é que «augmented» não é muito frequente no inglês; não é certamente tão frequente quanto «aumentado» ou «aumentar», em português. Ora, este facto tem a sua importância na tradução. Porque aos ouvidos de um falante de inglês, a expressão invocará a distância do quotidiano que a expressão em português não consegue invocar, dada a frequência com que usamos o verbo «aumentar».

Mas esta subtileza na questão da tradução não ajuda a esclarecer a medida em que a «realidade aumentada» nos oferece uma realidade maior. No meu estado de ignorância do Pokémon Go (volto a salvaguardar), considero qualquer imagem da realidade uma redução da realidade. Como qualquer ponto de vista capta da realidade uma parte, assim também qualquer imagem da realidade. Se a esta são depois sobrepostos sons e imagens… talvez fosse mais justo falar de «transformação de realidade», ou algo assim.

Vendo a questão de outro ponto de vista, poderemos também interrogar-nos sobre o que poderia ser, de facto, uma realidade aumentada. Talvez a objetividade. Se houver algum informático capaz de mostrar de uma realidade (digamos, para simplificar: uma cadeira) todos os pontos de vista possíveis, ao mesmo tempo, ele conseguirá chegar a uma realidade liberta da fatalidade humana que é o ponto de vista. Mas terá conseguido a tal realidade aumentada? Não… Apenas terá conseguido libertar-se da realidade tal como a vê uma pessoa; terá conseguido ver a realidade como se fosse muitas pessoas. Ou seja, terá feito uma conquista de perceção da realidade, não uma conquista sobre a própria realidade.

O que poderia então ser uma realidade verdadeiramente maior? Não faço ideia…