Pontos nos is!

Não sei há quanto tempo já se perdeu a noção do que significa “Muito obrigada/o”, mas cada vez mais me apercebo de que aumenta exponencialmente o número daqueles que desconhecem os fundamentos linguísticos do que estão a dizer quando proferem esta fórmula de agradecimento, o que maioritariamente resulta em incorreção. É verdade que todos a utilizamos várias vezes por dia e que quem está atrás de um balcão ou a prestar qualquer tipo de serviço a dirá umas boas dezenas e até centenas de vezes por dia. Enfim, gastamo-la ao ponto da erosão e já ninguém repara muito, de facto, no que está a dizer.

Hoje tive a clara noção de que o jovem de 20 e poucos anos do posto de abastecimento de combustível a quem paguei, e que me agradeceu no fim com um incorreto “Obrigada”, ficou surpreso e um tanto ofendido quando lhe agradeci também com um correto “Obrigada”…

Vamos por partes, o que determina a declinação do adjetivo obrigado/a é o género de quem o pronuncia e não o da pessoa a quem é dirigido. Ou seja, quando digo “Obrigada” a alguém, seja homem ou mulher, nunca poderei mudar o género da palavra porque o meu género é feminino. O que eu estou a dizer quando assim agradeço é que fico com obrigações para com a pessoa que me prestou um serviço ou me fez um favor; fico-lhe obrigada. Consequentemente, um homem nunca poderá dizer outra coisa que não “Obrigado”, independentemente do género do interlocutor. E quando dizemos “Obrigadas(os)” não é porque estejamos a agradecer a muitas pessoas, mas porque estamos a agradecer em nome de várias pessoas. Não há nada mais simples, afinal.

E, se ainda assim, na altura de agradecer, for assaltada/o pela dúvida, diga: “Bem haja(m)”, à maneira das Beiras. E à boa maneira portuguesa, digo-vos eu obrigadinha por terem lido mais um dos meus manifestos.

 

Nazaré Carvalho