Palavras vadias

«O mundo precisa de pessoas que utilizem mais o coração» é uma frase que encontrei numa parede, julgo que em Évora.

Esta constatação é, como muitas outras frases pintadas, também um apelo, um pedido para que, quem lê, pense um pouco sobre esta afirmação e é, simultaneamente, um manifesto, uma declaração exclamada em forma de grito, de revolta contra um mundo do qual a humanidade parece ausente.

É exatamente esta capacidade de utilizar o coração, de «pensar» com o coração, de ter sentimentos, que distingue o Homem dos outros seres na natureza. Os animais e as plantas são incapazes de produzir as reações químicas responsáveis pelos sentimentos.

Como deseja E. E. Cummings, «que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas / aves, que são os segredos de viver». São as pequenas coisas, os «pequenos nadas» que dão alguma poesia e beleza à vida. Sem eles tudo seria mais cinzento (ou, mesmo, mais preto). Sem eles, nada faria sentido. Mas, com eles, tudo ganha outra dimensão, porque, quando se utiliza o coração para «ver», acabamos por nos aperceber de que estes «pequenos nada», estas «grandes serras paradas / À espera de movimento» contêm tanta beleza como os pequenos gestos do quotidiano. Como afirmou Miguel Torga, a grande «maravilha» tanto está em ver «Meu Pai a erguer uma videira / Como uma Mãe que faz a trança à filha».

É curiosa esta associação entre o coração e os sentimentos quando se sabe, hoje, que o responsável pelos sentimentos é o cérebro e não o coração. Porém, desde a Antiguidade e, sobretudo, na Idade Média, o coração era considerado o órgão responsável pela vida humana. E, assim, foi surgindo a associação entre o coração como órgão e o coração simbólico, que representa o amor, a amizade, a caridade e os sentimentos positivos. Apesar de se saber que assim não é, mantém-se a ideia poética de o coração ser o símbolo do amor, até mesmo porque este bate mais forte no coração dos apaixonados…

Assim, penso que esta frase apela a que, para que o mundo seja melhor, as pessoas utilizem mais o coração, pensem mais nos outros, nos seus sentimentos, que olhem à sua volta «com olhos de ver», que observem as aves no Céu, que reparem nos pequenos gestos, e que pensem no que os outros podem estar a sentir e se precisam de um ombro amigo ou de uma palavra de conforto.

E não parece ser muito difícil «utilizar o coração» nas diversas situações das nossas vidas. De um médico espera-se que seja humano e veja a pessoa por trás do paciente; de um trolha espera-se que seja humano, que veja a mulher por trás do par de pernas ao qual lança um piropo; de um lojista espera-se que seja humano, aconselhando aquele vestido ou aquele perfume que melhor fica àquela pessoa em vez de procurar vender o mais caro; de um taxista espera-se que seja humano e veja que o preço a pagar pela viagem deverá ser justo e não faça o percurso mais longo; de um professor espera-se que seja humano e que veja a pessoa por trás das notas do aluno…

Tudo seria bem mais fácil se, em vez de complicar, como habitualmente fazemos, aprendêssemos a tornar as relações humanas mais simples. Talvez assim pudéssemos contribuir mais para a felicidade dos outros. E também para a nossa.

 

Maria Eugénia Leitão

Escrito em parceria com o jornal Sol