Palavras e usos de antanho: “Tudo fino!”

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Em tempos não muito idos, a palavra “fino” tinha dimensões hoje quase desconhecidas e muito pouco utilizadas. Aqui vai uma história cheia de “finos”, em várias aceções, num ambiente ficcionado, de antanho, que bem poderia situar-se na primeira metade do século XX.

– Então, lá por casa, está tudo fino, ó Simão?

– Estão todos bem, graças a Deus, Senhor Doutor. Só a mulher é que anda um bocado alquebrada, mas nada de cuidado. São as fezes com o mais velho, o David, que vai para a tropa. Ultimamente até lhe falta o rigor na cabeça. Diz que anda ourada, tadita. Mas lá vai levando a lida por diante, como Deus deixa.

– Isso passa-lhe, ó Simão, não se preocupe que não é nada. Então e a sua mais nova, sempre segue os estudos ou vai para a costura?

– A nossa menina tem uma inteligência fina, o Senhor Doutor desculpe a falta de modéstia, mas é o que dizem os professores. É um orgulho, a gaiata. Mas gostávamos mais que fosse para a costura, sempre aprendia um mester seguro. Daqui a nada casa-se e nem vai ter tempo para ler nem escrever.

– Olhe que a sua menina devia ir estudar, Simão, fale lá com a sua senhora e pensem bem, eu posso ajudar no que for preciso. A Ana até pode vir a ser uma mulher letrada. Ainda por cima a rapariga é uma estampa de fino recorte, sem ofensa, ó Simão. Até é bem capaz de conseguir casar com um rapaz de bom nível.

– Pois, não sei…

– Então e o seu Manel, o pequenito?

– Ora, esse é fino, não se deixa enganar por ninguém e está sempre alerta. É mais esperto que um alho. Vejo-lhe jeitos de um dia ter um negócio dele. Puxa ao meu irmão, os números para ele também não têm segredos e vai muito bem na escola.

– Olhe, Simão, tem aqui uma caixa de bolinhos para levar à sua família, para o lanche, que manda a minha mulher. E mande cumprimentos meus à sua senhora.

– Ó Conceição, o Senhor Doutor manda-te cumprimentos e a Senhora Joana estes bolos, para o lanche.

– Ai, uma latinha de folha de flandres com sortido fino; isto é estrangeiro. Vê-se logo que é gente fina. Bem gostava de casar a nossa Ana com o Francisquinho. Tem um porte tão fino, o rapaz. E os moços gostam tanto um do outro. Desde catraios!

– Pois eu acho que o Senhor Doutor também tem lá as ideias dele sobre o assunto, mas eu não sei se me agradam. Até me disse que ajudava a pagar os estudos da nossa Ana…

– Ai, benza-o Deus! É mesmo bom senhor.

– Pois não sei, não sei. Ainda perdemos é a nossa filha, que gentefina e gente grossa não se misturam. Mistura fina só na lata do café, essa é que é essa. Olha, vou à venda do Zé, que preciso de arejar. Volto para o jantar.

– Boas tardes. Ó Zé, serve-me um fino bem tirado que preciso de refrescar a goela e o espírito.

– Com colarinho alto?… Então, homem?

– Normal. Então nada, não é que o Doutor Noronha anda com ideias sobre a minha Ana e o Francisquinho?

– É raios, isso não parece bem. Mas lá que os cachopos fazem um belo par…

– Quais nada! A água e o azeite não se misturam. E já dizia o outro:

A rica tem nome fino, /a pobre tem nome grosso;/ a rica teve um menino, /a pobre pariu um moço.

Os nossos mundos são coisas apartadas. Eles lá e nós cá! Tenho dito e fino piou quem já se calou!!!

Nazaré Carvalho