Palavras de antanho

Nazaré Carvalho é especialista em comunicação, tendo trabalhado mais de 12 anos no departamento de comunicação da McKinsey & Company. É estudante de flauta transversal, e dotada de ouvido apuradíssimo para a linguagem. Aceitou o convite que lhe dirigimos para escrever sobre palavras no blogue da Letrário, e damos-lhe hoje as boas-vindas.

 “Estes jornais ainda mascarram as mãos.”

Acreditem que depois desta minha afirmação dei com as caras perplexas dos meus cinco interlocutores, rapazes e raparigas com idades entre os 22 e os 31 anos. Nenhum deles conhecia a palavra “mascarrar”. Como é possível?! Foi um choque para mim e para eles. Isto é o generation gap em todo o seu esplendor. Não, não tinha a noção de que este verbo era inexistente para as novas gerações, e parece-me impossível que nunca o tenham ouvido pronunciar uma vez sequer. No entanto, confesso que eu própria, ao dizer esta palavra – que não devia usar há uns bons anos – também me senti espantada. A sonoridade áspera, quase rude, da palavra remete para mascarar + escarrar, e foi mesmo esse o feedback que tive a seguir: o som é desagradável. O que os usos e costumes fazem às palavras. Os jornais em papel caíram em desuso e os poucos que ainda sujam as mãos a lê-los, já não mascarram… quase nada. Jajão*

 

Significado de mascarrar

v.t. Sujar com mascarra.
Pintar ou escrever mal, imperfeitamente.

Definição de mascarrar

Classe gramatical: verbo transitivo direto
Tipo do verbo mascarrar: regular
Separação das sílabas: mas-car-rar

in Dicionário online de português

 

mas·car·rar

verbo transitivo

  1. Pôr mascarras em; pintar mal; Escrever mal.
  2. Deitar borrões em.
  3. [Pouco usado] Macular, desacreditar.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013,http://www.priberam.pt/dlpo/mascarrar[consultado em 03-11-2014].

 

* Palavra de origem angolana que significa engano, aldrabice. Modismo recente, muito comum nas camadas mais jovens, que entrou por via da música Jajão, de Master Jake.

“Era só jajão / quando tu dizias que eu sou teu único amor baby

Era só jajão / quando tu dizias que serias sempre a minha baby

Era só jajão / tu dizias que me morres que me adoras baby

Era só jajão / quando tu dizias para pedir a tua mão”.

Nazaré Carvalho