Os novos significados e a evolução da língua

 

No início de setembro, o sítio na Internet Dictionary.com fez grandes alterações a mais de 15 000 entradas.

Neste artigo, a Letrário tratará de expor e discutir estas atualizações, que envolvem, por exemplo, vertentes como etnia, orientação sexual, toxicodependência e suicídio. Trataremos igualmente de refletir sobre a necessidade da evolução da língua no seio da sociedade, à luz da teoria de Michael Halliday, linguista funcionalista.

 

Dictionary.com faz a maior atualização de sempre

No geral, a linguagem do Dictionary.com referente às pessoas LGBTQIA, por exemplo, foi revista,  centrando as definições nas pessoas, em vez de a centrar na linguagem clínica, de modo a eliminar «a inferência de que se fala de um diagnóstico médico, uma doença, ou uma patologia, quando, na verdade, se trata de comportamentos humanos e formas de ser normais».

Jennifer Steeves-Kiss, chefe executiva do Dictionary.com, afirmou que «2020 tem sido um ano de mudanças nunca antes vistas, afetando a forma como vivemos, trabalhamos, interagimos – e como usamos a linguagem. [A atualização] representa um compromisso incansável de toda a equipa, não só na documentação da forma como a língua evolui, mas também na garantia de que os nossos utilizadores encontram sempre o significado de que precisam

 

A mudança

Black

No Dictionary.com, encontramos a seguinte definição de black:

Relating or belonging to any of the various human populations characterized by dark skin pigmentation, specifically the dark-skinned peoples of Africa, Oceania, and Australia.

e esta é agora acompanhada por uma nota relativa ao uso, que defende a maiusculização do adjetivo (quando se refira a pessoas) em sinal de respeito.

Esta recomendação é justificada pelo facto de já se usar também a letra maiúscula na designação de vários grupos étnicos e várias nacionalidades, como é o caso de Hispanic.

 

Homosexual

Antes de qualquer definição de homosexual, a página apresenta uma nota relativa ao uso e sugere que sejam antes procurados sinónimos do termo.

A nota alerta para o facto de, até 1973, a homossexualidade ter sido considerada uma doença pelo The Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, e de ter ainda, por isso, uma conotação negativa. A nota explica que, no geral, excetuando os contextos médicos, a palavra foi substituída pelo termo gay, que não enfatiza tanto a componente sexual na definição.

 

Addict

Sometimes Offensive.

a person who has become physically or psychologically dependent on a chemical substance

Relativamente a addict, toxicodependente, a página informa de imediato que o termo pode ser pejorativo, sugerindo também sinónimos e a leitura de uma nota de uso. Nesta defende-se que as pessoas são seres complexos e que a humanidade nelas não se resume a uma única faceta.

 

Commit suicide

A página afirma que a expressão commit suicide não é recomendada pelos principais guias de estilo da língua inglesa, nem por profissionais de saúde mental, nem por especialistas na prevenção do suicídio.

O verbo to commit é frequentemente associado ao crime (no sistema judicial) e ao pecado (na religião), e a utilização da linguagem moralista aprofunda a dor emocional ligada ao ato. A nota recorda não haver mal nenhum em falar sobre o suicídio, mas faz notar também a insensibilidade da linguagem que o criminaliza.

 

A atualização é válida no que toca aos padrões linguísticos?

Mesmo quem defende o lado mais constante da língua, sabe ser ela que nos serve, e que o respeito pelo outro está acima de qualquer «gramática». Mas vejamos por que a evolução da língua é tão importante:

 

The internal organisation of language is not arbitrary but embodies a positive reflection of the functions that language has evolved to serve in the life of social man.1

Halliday, M.A.K. (1973) Explorations in the Functions of Language. London: Edward Arnold.

1 A organização interna da língua não é arbitrária, reflete sim, positivamente, as funções que a língua desenvolveu para servir o homem em sociedade.

 

A citação acima é de Michael Halliday, académico britânico internacionalmente reconhecido, que contribuiu significativamente para a linguística a partir dos anos 60, bem como para outras áreas.

Especificamente, Halliday desenvolveu a teoria sistémico-funcional da linguística (LSF), bastante relevante nos dias de hoje, afastando a ciência da «era sintática» (as estruturas) e aproximando-a da chamada «era semiótica» (o sentido). Pode dizer-se que foi o primeiro linguista a ver a língua como um recurso para a interpretação do significado (Learning How to Mean, 1974). Foi ele que cunhou a expressão «a língua enquanto semiótica social», no início dos anos 70.

Acreditando que as gramáticas estruturalistas não estudavam a língua em contexto, mas como um sistema autónomo e homogéneo, e que elaboravam exemplos baseados em enunciados irreais que originavam a descontextualização do signo («o que quer dizer X»), a LSF defende que nós, os falantes, nos expressamos por textos (unidades semânticas) em contextos específicos («o que quer dizer X no contexto Y»).

Esta teoria propõe, portanto, como objeto de estudo a parole (a fala, isto é, o que cada falante faz com a língua), por oposição à langue (a língua, abstrata), estudando e descrevendo a língua em contexto, porque esta é a única realidade para os falantes.

Se virmos a língua como um «organismo vivo», a atualização do Dictionary.com faz muito sentido, e está em linha com esta teoria que dá enfâse à função, ao significado e ao contexto em que as palavras são utilizadas.

Seria, pois, oportuno concluir que este dicionário não pretende impor novas definições sem sentido; pretende sim atualizá-las, de modo a refletir a realidade dos dias de hoje, que está em permanente evolução. Assim como pretende dar resposta às necessidades linguísticas e semióticas dos falantes impactados pela língua que os descreve, tendo em conta a variação, em função do grupo social, do lugar e do tempo.

 

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