O Rapto do Pai Natal

Lyman Frank Baum (1856-1919) foi um autor americano, conhecido por ter criado o famoso Feiticeiro de Oz. Antes do conto sobre o rapto do Pai Natal, já o autor tinha escrito The Life and Adventures of Santa Claus, de que o conto é uma continuação independente. A traduçãoque aqui farei será acompanhada de notas sobre as dificuldades e opções do trabalho de tradução.

 

O Rapto do Pai Natalpor L. Frank Baum

O Pai Natal vive no Vale do Riso. É lá que fica o grande castelo divagante onde os brinquedos são construídos. Os trabalhadores que o Pai Natal escolheu entre os trasgos, zanganitos, duendes e fadas também lá vivem, e todos andam tão atarefados quanto é possível, desde o fim de um ano até ao fim do ano seguinte.

Chama-se Vale do Riso porque tudo nele é feliz e alegre. O riacho ri consigo próprio ao saltitar radiante entre as verdes margens; o vento assobia alegremente nas árvores; os raios de sol dançam delicadamente sobre a erva macia, e as violetas e outras flores silvestres põem-se a olhar ao alto, sorrindo lá dos seus verdes ninhos. Para rir é preciso ser feliz; para ser feliz é preciso estar satisfeito. E por todo o Vale do Riso do Pai Natal o contentamento é rei e senhor.

De um lado fica a impressionante floresta da Travoela. Do outro lado, fica a enorme montanha onde se encontram as cavernas dos demónios. E entre os dois fica o Vale sorridente e pacífico.

Poder-se-ia pensar que o nosso bom velho Pai Natal, que dedica os dias a fazer felizes as crianças, não teria inimigos em toda a terra; e, na verdade, por muito tempo só achou amor onde quer que fosse.

Mas os demónios que vivem nas cavernas da montanha acabaram por odiar o Pai Natal, e tudo pela única razão de ele fazer as crianças felizes.

As cavernas dos demónios são cinco. Um largo caminho leva à primeira e ampla caverna, no sopé da montanha, cuja entrada é formosamente esculpida e decorada. Mora ali o demónio do Egoísmo. Por trás desta caverna, fica outra habitada pelo demónio da Inveja. A caverna do demónio do Ódio fica logo a seguir e, através desta, chega-se à casa do demónio da Malícia: uma caverna escura e assustadora, no próprio coração da montanha. Não faço ideia do que fica lá para trás. Alguns dizem que há terríveis armadilhas capazes de matar e destruir; o que pode muito bem ser verdade. Porém, a partir de cada uma das quatro cavernas de que vos falei há um túnel baixo e estreito que conduz à quinta caverna: uma pequena e acolhedora câmara ocupada pelo demónio do Arrependimento. E como o chão rochoso destes corredores está bem gasto pela passagem de gente, deduzo que muitos exploradores das cavernas dos demónios escaparam pelos túneis para a residência do demónio do Arrependimento. Segundo dizem, este demónio é uma espécie de tipo simpático que, de boa vontade, nos deixa sair por uma pequena porta para voltarmos ao sol e ao ar fresco.

Bem, estes demónios das cavernas, achando que tinham muitas razões para não gostar do velho Pai Natal, fizeram, certo dia, uma reunião para discutir o assunto.

(continua)

Notas à traduçãoÂngela Santos

A primeira dificuldade detradução aparece logo no início quando o autor identifica os trabalhadores do Pai Natal: “ryls, knooks, pixies and fairies”, no original. Os dois últimos podem traduzir-se sem concessões por “duendes” e “fadas”: toda a gente sabe o que são. Mas os dois primeiros… nem se encontram os dicionários de inglês consultados. É certo, no entanto, que são seres fantásticos, desconhecidos do público português. Este facto pareceu-me impor a traduçãopara seres fantásticos da tradição popular portuguesa. Não sendo esta muito amiga de inventar criaturas amáveis, escolhi as que poderiam, apesar de tudo, ser escolhidos para trabalharem na oficina do Pai Natal: trasgos e zanganitos.

A segunda dificuldade é atradução do nome da floresta Burzee, que nunca existiu a não ser em contos do fantástico, a começar por este precisamente. Sendo um nome próprio, poderia optar por mantê-lo. Mas creio que esta opção tornaria o lugar do texto totalmente indiferente a ouvidos portugueses, ao mesmo tempo que talvez promovesse uma associação ao mundo anglo-saxónico, afastando os leitores da fantasia de um mundo inalcançável. O que seria pena. Decidi, portanto, traduzir o nome de modo a provocar ressonâncias condizentes com a descrição do lugar nomeado, evitando, ao mesmo tempo, gestos excessivos neste esforço.