O Rapto do Pai Natal (última parte)

O Rapto do Pai Natalpor L. Frank Baum

Os pequenos imortais abraçaram ali uma tarefa difícil. Era verdade que tinham já ajudado o Pai Natal em muitas viagens, mas o patrão sempre os tinha orientado e guiado com instruções exatas sobre o que desejava que fizessem. Agora, pelo contrário, os assistentes do Pai Natal teriam de pensar pela cabeça deles para distribuírem os brinquedos, embora não compreendessem os miúdos tão bem como o patrão. Não admira, portanto, que tivessem feito alguns disparates engraçados.

A Manuela Branco queria uma boneca, mas recebeu um tambor; e, claro, um tambor não tem serventia nenhuma para uma menina que adora bonecas. O Carlos Santos, que delira com corridas e brincadeiras na rua, queria umas botas de borracha novas para manter os pés secos. Mas em vez das botas recebeu uma caixa de costura cheia de novelos de lã coloridos e linhas e agulhas. O desgraçado achou que aquilo era uma provocação e, impensadamente, disse que o nosso querido Pai Natal não passava de uma fraude.

Se tivesse havido muitos enganos destes, os demónios teriam cumprido o propósito malvado de tornar as crianças infelizes. Mas os pequenos amigos do desaparecido Pai Natal trabalharam com convicção e inteligência para concretizarem as ideias do patrão, e fizeram até menos erros do que seria de esperar em circunstâncias tão incomuns.

Embora tenham trabalhado o mais depressa que puderam, o dia começou a nascer antes de estarem distribuídos todos os brinquedos e outros presentes. Por isso, pela primeira vez em muitos anos, as renas trotaram de volta ao vale do Riso em plena luz do dia, já o sol espreitava sobre o limite da floresta. As horas de regresso habituais tinham portanto passado havia muito.

Depois de deixarem as renas no estábulo, a gente pequena começou a pensar em como haveria de resgatar o patrão. Compreenderam que tinham de começar por descobrir o que poderia ter-lhe acontecido e onde poderia ele estar.

A fada Vieira transportou-se então até à pérgula onde vivia a fada rainha, lá bem no coração da floresta da Travoela. Quando chegou, não demorou a descobrir tudo o que havia a saber sobre os malvados demónios e sobre como tinham raptado o bom Pai Natal para o impedirem de fazer a felicidade dos meninos. A fada rainha prometeu que ajudaria a salvar o Pai Natal, e a fada Vieira, animada por esta valiosa promessa, voou de volta até onde a esperavam o Neves, o Pacheco e o Queirós. Os quatro conversaram sobre o que haveriam de fazer e arquitetaram um plano para resgatarem o patrão dos inimigos.

Talvez o Pai Natal, na noite em que o capturaram, não estivesse tão contente como era costume. Embora confiasse na esperteza dos amigos minúsculos, não conseguia evitar alguma preocupação. Quando pensava na desilusão que poderia estar à espreita dos meninos tão queridos, estalava por vezes, nos velhos e amáveis olhos do Pai Natal, um olhar ansioso. Os demónios, que o guardavam por turnos, um a seguir a outro, também não deixaram de se aproveitar da impotência do velho senhor para o insultarem com palavras de desrespeito.

Quando o dia de Natal amanheceu, era a vez de o demónio da Malícia guardar o prisioneiro. E este demónio tinha a língua mais afiada do que qualquer um dos outros.

– Os gaiatos estão a acordar, Pai Natal! – Exclamou ele. – A acordar para encontrarem os sapatinhos vazios! Ho, ho! Ah como eles vão protestar e gemer, e como vão bater com os pés de raiva! As nossas cavernas hoje vão encher, velho Pai Natal! Tenho a certeza de que as nossas cavernas hoje vão encher!

Mas o Pai Natal não respondeu nem a este nem aos outros insultos. Estava a sofrer muito com a reclusão, é verdade; mas a coragem não o abandonou. Reparando em que o prisioneiro não respondia às provocações, o demónio da Malícia foi-se embora, e mandou o demónio do Arrependimento substituí-lo.

Esta última figura não era tão desagradável como as outras. Sabia ser gentil e refinado; tinha um tom de voz suave e agradável.

– Os meus irmãos demónios não confiam muito em mim, disse ele ao entrar na caverna. – Mas já é de manhã e a diabrura está feita. Terás de deixar passar um ano até poderes visitar os miúdos outra vez.

– Isso é verdade, respondeu o Pai Natal, quase alegremente. – A véspera de Natal passou e, pela primeira vez em séculos, não pude visitar os meus meninos.

– Os pequenos vão ficar muito desapontados, murmurou o demónio do Arrependimento, quase arrependido. – Mas agora já não há nada a fazer. É provável que a mágoa os torne egoístas e invejosos e que os encha de ódio. Se entrarem hoje nas cavernas dos demónios, terei oportunidade de levar alguns para a minha caverna do Arrependimento.

– E tu? Nunca te arrependes? – Perguntou o Pai Natal, curioso.

– Ah sim, com certeza, respondeu o demónio. – Agora mesmo estou cheio de arrependimento por ter ajudado a raptar-te. Claro que é tarde demais para remediar o mal feito; mas o arrependimento, sabes, só pode vir depois de um pensamento ou de um ato malvados. É que, ao princípio, não há nada de que arrepender-nos.

– Ah, compreendo, disse o Pai Natal. –Aqueles que evitam o mal nunca precisam de ir à tua caverna.

– Em princípio é assim, respondeu o demónio. – Porém, tu, que nunca fizeste nada de mal, estás quase a passar pela minha caverna. Para provar que sinceramente me arrependo de ter participado na tua captura, vou deixar-te fugir.

Esta conversa surpreendeu muito o prisioneiro, até pensar que, na verdade, não se podia esperar outra coisa do demónio do Arrependimento. O tipo logo tratou de desfazer os nós que prendiam o Pai Natal e de abrir os cadeados que o acorrentavam à parede. Depois mostrou-lhe o caminho atravessando um longo túnel até que ambos chegaram à caverna do Arrependimento.

– Espero que me perdoes, pediu o demónio, suplicante. – Na verdade, não sou má pessoa, sabes? E acredito que faço um grande bem ao mundo.

Com estas palavras, abriu uma porta traseira deixando entrar uma inundação de sol e o Pai Natal, grato, aspirou o ar fresco.

– Não guardo nenhuma malícia, disse ele ao demónio com voz meiga, e tenho a certeza de que o mundo seria um lugar sombrio sem ti. Portanto, olha: um bom dia e um feliz Natal para ti.

Com estas palavras, o Pai Natal saiu para saudar a manhã que rebrilhava, e lá foi ele depois, abrindo caminho e assobiando suavemente para consigo, em direção à casa no vale do Riso.

Sobre a neve, a caminho da montanha marchava entretanto um vasto exército de criaturas mais curiosas do que se possa imaginar. Havia inúmeros zanganitos da floresta, de aparência bruta e torta como os ramos nodosos das árvores de que eles tanto gostam. E havia delicados trasgos dos campos, cada um com o emblema de uma flor ou planta. Por trás dos trasgos, vinham muitas filas de duendes, gnomos e ninfas, e por fim mil formosíssimas fadas flutuavam, em magnífica formatura.

A fada Vieira, o Pacheco, o Neves e o Queirós comandavam este maravilhoso exército. Tinham-no reunido para salvar o Pai Natal do cativeiro, e para castigar os demónios que se tinham atrevido a afastá-lo das crianças por ele tão amadas.

Embora parecessem tão pacíficos quanto cintilantes, os pequenos imortais estavam armados de poderes que poderiam mostrar-se terríveis para todos os que incorressem na fúria deles. Ai dos demónios das cavernas, se alguma vez este poderoso exército de vingança viesse a encontrar-se com eles!

Mas ah! Vindo ao encontro dos leais amigos, apareceu a forma imponente do Pai Natal: a barba branca flutuava na brisa e os olhos brilhantes faiscavam de emoção por ter inspirado uma tal prova de amor e veneração nos corações das mais poderosas criaturas existentes.

Enquanto se reuniam em torno do Pai Natal e dançavam de alegria por ele ter regressado são e salvo, agradeceu-lhes com sinceridade. Já a Vieira, o Neves, o Pacheco e o Queirós, foi com afeto que o Pai Natal abraçou.

– É inútil perseguir os demónios, disse o Pai Natal ao exército. – Há um lugar no mundo para eles, e nunca poderão ser eliminados. Embora seja uma grande pena, continuou ele pensativamente.

As fadas e os zanganitos e os duendes e os trasgos escoltaram então o bom homem ao castelo, e lá o deixaram à conversa com os seus pequenos assistentes sobre os acontecimentos da noite.

A Vieira já se tornara invisível para voar sobre o grande mundo e assim ver como se encontravam as crianças naquela cintilante manhã de natal. Quando voltou, o Pacheco tinha terminado de contar ao Pai Natal como tinham distribuído os brinquedos.

– Portámo-nos mesmo bem, exclamou a fada contente. – Encontrei muito pouca infelicidade entre as crianças esta manhã. Ainda assim, meu querido patrão, não pode deixar-se apanhar outra vez, porque de uma próxima vez podemos não ter tanta sorte a pôr em prática as suas ideias.

Contou então os enganos de que se tinha apercebido durante a visita de inspeção. E logo o Pai Natal o enviou com botas de borracha para o Carlos Santos e uma boneca para a Manuela Branco. Queria que até estes dois desiludidos meninos ficassem felizes.

Já os malvados demónios das cavernas ficaram cheios de raiva e de desgosto, quando perceberam que a esperta captura do Pai Natal não tinha dado em nada. De facto, naquele dia de Natal, ninguém parecia de todo dado ao egoísmo, à inveja ou ao ódio. Os demónios também nunca mais tentaram interferir nas viagens do Pai Natal na véspera de Natal, pois perceberam que o santo das crianças tinha demasiados amigos poderosos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas sobre a traduçãoÂngela Santos

À medida que a história se vai aproximando do fim e passando por uma sequência de acontecimentos em ritmo mais acelerado, a dificuldade na tradução aumenta também. Por um lado, devido à necessidade de encontrar um ritmo suficientemente fluído e uma expressão familiar em português; por outro, porque a defesa de um sentido agora mais complexo exige frequentes afastamentos da sintaxe e da pontuação originais. Sempre com a preocupação, no entanto, de não ceder à tentação de reescrever o conto criando uma versão, em vez de uma tradução.

Durante a descrição do exército de criaturas fantásticas que vêm em socorro do Pai Natal, foi necessário fazer mínimas adaptações. Na verdade, a opção por usar a designação de criaturas fantásticas do universo popular português, em vez da de criaturas da mitologia popular anglo-saxónica, desconhecidas dos leitores portugueses, implicou um esforço de coerência quando as mesmas criaturas são referidas nesta parte final do conto. Aqui, são descritas com caraterísticas relacionadas com as lendas que protagonizam, o que não faria sentido manter em português. Também não faria sentido modificar o conto ao ponto de introduzir traços das criaturas portuguesas, que o original evidentemente desconhece. Optei, portanto, por manter as caraterísticas, desligando-as de hábitos que só existem nas lendas de origem anglo-saxónica. É por isso que os zanganitos “gostam” dos ramos nodosos das árvores, em vez de os “servirem” (“…they ministered to”). E é também por isso que cada trasgo leva simplesmente o emblema de uma flor ou planta, em vez de levar o emblema da flor ou planta que costuma proteger (“…it guarded”).

Refiro, para terminar e para variar, uma facilidade de tradução. A diversidade de palavras que a língua portuguesa tem para referir as crianças (gaiatos, miúdos, pequenos, pequenotes, meninos, crianças), mesmo dentro do registo cuidado da linguagem, permitiu-me sublinhar as diferenças de relacionamento entre as crianças e o Pai Natal, os demónios, e os próprios assistentes do Pai Natal. No primeiro caso, pude destacar o afeto; no segundo, o desdém; no terceiro, a responsabilidade descontraída. Sempre e tão só escolhendo criteriosamente um dos sinónimos disponíveis.