O Rapto do Pai Natal (parte 3)

O Rapto do Pai Natalpor L. Frank Baum

 

(Continuação)

Toda a gente sabia que nada de mal poderia acontecer ao Pai Natal enquanto ele estivesse no vale do Riso. Lá, todas as fadas, todos os trasgos e zanganitos o protegiam. Mas, na véspera de Natal, o Pai Natal conduzia as renas para fora do vale até ao grande mundo, enquanto elas puxavam o trenó carregado de brinquedos e de maravilhosos presentes para as crianças. Era portanto nesta altura que os inimigos do Pai Natal tinham a melhor oportunidade para lhe fazer mal. E então os demónios congeminaram um plano, e puseram-se à espera de que, por fim, chegasse a véspera de Natal.

A enorme lua apareceu alva no céu, e a neve caía estaladiça e brilhante no chão, enquanto o Pai Natal fazia estalar o chicote e acelerava para sair do Vale e para entrar no grande mundo lá longe. O espaçoso trenó transbordava de grandes sacos cheios de brinquedos, e o nosso velho e alegre Pai Natal ria-se e assobiava e cantava de pura alegria, conduzindo as renas que corriam sempre em frente. De toda a alegre vida que ele levava, aquele era o dia do ano em que se sentia mais feliz – o dia em que ia levar aos meninos os tesouros feitos na oficina.

Ele bem sabia que a noite prometia ser muito atarefada. Enquanto ia assobiando, gritando e fazendo o chicote estalar outra vez, foi lembrando todas as vilas e cidades e todas as quintas onde o esperavam. Confirmou assim que tinha presentes suficientes para dar a volta completa e fazer felizes todas as crianças. As renas sabiam exatamente o que se esperava delas e corriam tão depressa que as patas pareciam mal tocar o chão coberto de neve.

Foi então que, de repente, aconteceu uma coisa estranha: uma corda com um grande laço na ponta atravessou o luar e foi cair sobre os braços e o corpo do Pai Natal apertando-o com força. Antes de poder resistir ou mesmo gritar, foi puxado do assento do trenó para cair de cabeça num monte de neve. Enquanto isto, as renas continuaram a correr sempre em frente levando a carga de brinquedos. O Pai Natal logo foi levado para onde não o pudessem ver nem ouvir.

Por alguns instantes, aquela tão inesperada experiência deixou confuso o velho Pai Natal. Quando recuperou os sentidos, descobriu que os malvados demónios tinham usado uma forte corda para o apertar com muitas voltas, depois de o terem arrastado do monte de neve. Tinham depois carregado o prisioneiro para uma gruta secreta na montanha dos demónios, onde o tinham acorrentado à parede rochosa, para que não pudesse escapar.

– He he!, riam-se os demónios, esfregando as mãos de alegria cruel. – E agora? Que vão os gaiatos fazer? Como vão guinchar e ralhar e fazer birras, quando não encontrarem brinquedos nos sapatinhos, nem presentes na árvore de Natal! E os castigos que os pais lhes vão dar!… Hão de vir em rebanho para as nossas cavernas do Egoísmo, e da Inveja, e do Ódio, e da Malícia! Que coisa tão esperta nós fizemos! Nós: os demónios das cavernas!

Ora acontecia que, naquela véspera de Natal, o bom do Pai Natal tinha levado, no trenó, os quatro assistentes que ele preferia: o trasgo Neves, o zanganito Pacheco, o duende Queirós, e a pequena fada Vieira. Tinha achado que aquelas pessoas pequenas lhe seriam muito úteis na tarefa de distribuição das prendas pelos meninos. Iam eles portanto confortavelmente enfiados por baixo do assento, onde o vento cortante não conseguia chegar-lhes, quando o patrão foi de repente arrastado do trenó.

Os ínfimos imortais só se aperceberam do rapto do Pai Natal algum tempo depois de ele desaparecer. Mas acabaram por sentir falta da voz vibrante dele. Além disso, como o patrão passava as viagens a cantarolar ou a assobiar, o silêncio acabou por avisá-los de que alguma coisa estava errada.

A pequena Vieira esticou a cabeça de baixo do assento e encontrou desaparecido o Pai Natal: não havia ninguém que conduzisse o voo das renas.

– Parem!, gritou ela, e as renas reduziram obedientemente a velocidade, acabando por estacar.

O Pacheco e o Neves e o Queirós saltaram todos para o banco e ficaram a olhar para trás, onde se via o rasto deixado na neve pelo trenó. O Pai Natal, porém, já tinha caído muitos quilómetros antes.

– Que havemos de fazer? – Perguntou ansiosamente a Vieira, de cuja pequenina face aquela grande calamidade tinha feito desaparecer o ar divertido e traquinas.

– Temos de voltar para trás à procura do nosso patrão, disse o trasgo Neves, pensando bem, antes de falar, para não dizer nada insensato.

– Não, não! – Exclamou o zanganito Pacheco, que mesmo quando se zangava e se irritava, era pessoa com quem sempre se podia contar, em caso de emergência. – Se nos atrasarmos ou voltarmos para trás, não haverá tempo para entregar as prendas aos miúdos antes de amanhecer. E nada faria o Pai Natal sofrer mais.

– De certeza que alguma criatura malvada o prendeu, acrescentou o Queirós judiciosamente. – E o objetivo só pode ser tornar os miúdos infelizes. Portanto, o nosso principal objetivo tem de ser distribuir os brinquedos, com tanto cuidado como se o Pai Natal estivesse connosco. Depois, poderemos procurar o patrão e haveremos de o libertar nas calmas.

Os outros acharam esta opinião sensata e tão acertada que logo resolveram segui-la. O zanganito Pacheco chamou então as renas, e os fiéis animais logo se levantaram num salto e se puseram a correr por colinas e vales. Depressa atravessaram a floresta e a planície, até chegarem às casas onde os meninos dormiam e sonhavam com os belos presentes que haveriam de encontrar na manhã de Natal.

(continua)

 

Notas à traduçãoÂngela Santos

Nesta parte do conto de Baum, os assistentes preferidos do Pai Natal são identificados pelos nomes. Pela mesma razão que anteriormente me levou a traduzir os nomes usados, optei por rebatizar também estes assistentes com nomes portugueses. Usei nomes de família e não nomes próprios para afastar qualquer confusão com as crianças muito referidas ao longo do conto. As personagens dos assistentes são de tamanho pequeno, como é indicado no conto, mas são adultos. O que fica esclarecido pela nomeação com apelidos.

Apercebemo-nos também de que a fada Vieira é referida, no conto em inglês, por pronomes masculinos. O que significa que, para esta espécie de ser, existe a possibilidade do feminino mas também a do masculino, e o autor inglês escolheu a segunda possibilidade. Para os Portugueses, porém, a tradução por “um fada” não deixaria de ser sentida como um incompreensível erro. Optei portanto por tratar Vieira como uma fada, ou seja, um ser do sexo feminino.

Foi também inevitável trocar a “meia”, destinada a receber os presentes de Natal, pelo sapatinho que, na esfera cultural portuguesa, tem a mesma função.