O Rapto do Pai Natal (parte 2)

O Rapto do Pai Natalpor L. Frank Baum

(continuação)

– Começo a sentir-me muito sozinho, disse o demónio do Egoísmo. – O Pai Natal distribui tantos e tão maravilhosos presentes que as crianças desatam a ficar felizes e generosas como ele. E é assim que ficam longe da minha caverna.

– Estou com o mesmo problema, acrescentou o demónio da Inveja. – Os miúdos parecem muito contentes com o Pai Natal, e são mesmo poucos os que eu consigo convencer a tornarem-se invejosos.

– Ora isso é mau para mim! – declarou o demónio do Ódio. – Porque, se nenhuma criança passar nas cavernas do Egoísmo e da Inveja, nenhuma conseguirá chegar à minha caverna.

– Nem à minha, acrescentou o demónio da Malícia.

– À minha nem se fala, disse o demónio do Arrependimento. Se as crianças não forem às vossas cavernas, é claro que não sentirão nenhuma necessidade de ir à minha. Ando, portanto, tão à míngua como vocês.

– E tudo por causa desta pessoa a que eles chamam Pai Natal, exclamou o demónio da Inveja. Ele está pura e simplesmente a dar cabo do nosso negócio; e temos de fazer alguma coisa imediatamente.

Os outros logo concordaram com esta ideia. Mas a questão do que fazer exatamente era mais difícil de resolver. Eles sabiam que o Pai Natal, lá no castelo do Vale do Riso, trabalhava todo o ano a preparar os presentes que haveria de distribuir na véspera de Natal. Ao princípio, acharam portanto que conseguiriam acabar por levá-lo até às terríveis ravinas da destruição, depois de o fazerem cair na tentação de entrar nas cavernas deles.

Foi assim que, logo no dia a seguir, o demónio do Egoísmo foi ter com o Pai Natal e o encontrou a trabalhar afanosamente, sempre rodeado do seu pequeno bando de assistentes. Disse-lhe assim:

– Estes brinquedos são tão brilhantes e bonitos. Por que não ficas com eles? É uma pena dá-los a rapazes barulhentos e a raparigas refilonas, que não tardarão a parti-los e a destruí-los.

– Que disparate! – Exclamou o velho de barba grisalha, cujos olhos claros brilhavam alegremente quando se voltou para o demónio tentador. – Depois de receberem os meus presentes, nem os rapazes ficam assim tão barulhentos, nem as raparigas ficam assim tão refilonas. E se eu puder fazê-los felizes um só dia no ano, já fico muito contente.

O demónio voltou então para junto dos outros que o esperavam nas cavernas, onde lhes disse:

– Não consegui; não há ponta de egoísmo no Pai Natal.

No dia seguinte, o demónio da Inveja também foi ter com o Pai Natal. E disse-lhe assim:

– As lojas de brinquedos estão cheias de coisas tão bonitas como essas que estás a fazer. É uma pena elas estragarem o teu negócio! Como usam máquinas, fazem brinquedos muito mais depressa do que tu consegues fazê-los à mão. Além de que os vendem e portanto recebem dinheiro por eles; ao passo que tu não recebes nada pelo teu trabalho.

Mas o Pai Natal recusou-se a sentir inveja da loja dos brinquedos.

– Eu só consigo fazer entregas aos pequenotes uma vez por ano, na véspera de Natal, – respondeu ele. – É que as crianças são muitas, e eu sou só um. Além disso, como o meu trabalho é feito de amor e gentileza, eu teria vergonha de receber dinheiro em troca das minhas lembranças. Mas, durante o resto do ano, as crianças também têm de se divertir de alguma maneira. As lojas de brinquedos podem portanto trazer muita felicidade aos meus pequenos amigos. Eu gosto das lojas de brinquedos, e fico contente quando as vejo prosperar.

Apesar deste segundo repúdio, o demónio do Ódio pensou que ainda assim poderia tentar influenciar o Pai Natal. Portanto, no dia seguinte, lá foi ele até à oficina, onde a azáfama continuava, e disse assim:

– Bom dia, Pai natal! Tenho más notícias para ti.

– Então porque não fazes como um bom rapaz e te vais embora? Respondeu o Pai Natal. – Más notícias é coisa que se deve manter em segredo e nunca dizer.

– Ah, mas destas não conseguirás escapar, declarou o demónio. É que no mundo há muita gente que não acredita no Pai Natal. Acho por isso que estás condenado a odiar esta gente que se porta mal contigo.

– Que grande disparate! – exclamou o Pai Natal.

– E ainda há outros que te levam a mal andares a fazer as crianças felizes. E fazem pouco de ti chamando-te velho tolo e cabeça de chocalho! Tens muita razão em odiar estes desprezíveis coscuvilheiros, e devias vingar-te de tantas palavras maldosas.

– Mas eu não os odeio! – Exclamou o Pai Natal com firmeza. – Na verdade, essas pessoas não me fazem propriamente mal; elas só fazem a infelicidade deles e a infelicidade das crianças deles. Coitados! Mais facilmente me vejo a ajudá-los algum dia, do que a fazer-lhes mal.

Foi assim que os demónios não conseguiram de maneira nenhuma fazer o Pai Natal cair em tentação. Pelo contrário, como ele foi suficientemente perspicaz para perceber que eles queriam era enganá-lo e perturbá-lo, riu-se. E a alegria do riso dele deixou os maus atrapalhados. Os demónios perceberam, então, que aquelas tentativas eram uma grande parvoíce. Por isso resolveram largar as palavras de mel e passar à força.

(continua)

 

Notas à traduçãoÂngela Santos

O principal desafio desta parte do texto é a própria natureza dos diálogos. Porque a linguagem que usamos em discurso direto não é a mesma que usamos na narrativa. E porque o discurso direto é uma imitação da oralidade e, portanto, não será credível se não puder ser dito em voz alta, sem desconforto.

Mas há uma terceira razão para a dificuldade acrescida dos diálogos: é que a informalidade que reina na prática da oralidade e o mais alto grau de acomodação cultural que marca o discurso oral acabam por ter o efeito de afastar ainda mais as línguas, tanto no vocabulário quanto nas construções. Especialmente nestes casos, portanto, traduzir não é só transpor sentidos para outra língua, é também transpor formas de dizer para outras formas de dizer, noutra língua.

A ligação privilegiada que os contos de Natal têm com o mundo infantil levanta também a questão do nível de linguagem. Alguns tradutores defendem que se deve procurar o vocabulário dos mais pequenos e usá-lo preferencialmente, se não exclusivamente.

Eu confesso que ainda me lembro do mistério das palavras desconhecidas; e do entusiasmo com que lhes descobria o significado. Prefiro, portanto, deixar escapar aqui e ali vocabulário um pouco mais difícil, usar construções um pouco menos habituais, para quem queira dedicar-se a caçar tesouros escondidos. É importante não exagerar na medida, para não se correr o risco de tornar o texto hermético ou definitivamente reservado a adultos. Mas, se o exagero for evitado, é uma forma de ajudar a esticar o conhecimento, além do encantamento.

Questão afim desta é a da extensão das frases. Neste caso, prefiro rigorosa contenção, por duas razões. Primeiro porque uma frase longa, com muitas ou longas subordinadas corre o risco de fazer dispersar a atenção de quem lê. Depois, porque tais frases têm o efeito de subalternizar algumas ideias entre outras expressas na mesma frase, o que é por vezes uma grande pena. Nesta tradução, este motivo levou-me a dividir algumas frases que se apresentam unas no original.