O nascimento de um cometa linguístico: “copy-paste”

A linguagem, às vezes, dá piruetas à nossa frente. Percebemos então para onde se encaminha, antes mesmo de lá ter chegado. Na notícia de jornal que se vê na imagem, acontece algo assim.

 

copy-paste

 

Na linguagem corrente e falada, todos usamos, há muito, a designação de duas funcionalidades do Office (copiar e colar), cujo resultado é a cópia de uma parte de um documento e a repetição (colagem) exata, noutro lugar. Usamos as palavras inglesas “copy paste” para designar as operações, quer por as versões inglesas do Office serem mais antigas, quer por serem mais usadas, mesmo entre nós. E também já usamos, na oralidade, a mesma sequência para designar qualquer operação de cópia de um discurso ou dado que não passe das duas dimensões (palavras, desenhos, fotos, números). Note-se, no entanto, que já aqui há alguma criatividade, pois, no Office, as designações das operações referidas encontram-se separadas e entre outras. Além de os falantes portugueses terem selecionado estas duas, juntam-nas repetidamente, promovendo o uso como um composto, que esperamos, a qualquer momento, ver unido por hífen.

 

Não surpreende, portanto, que, na notícia publicada no Público, a sequência (escrita entre plicas) ocorra na transcrição do discurso oral de um entrevistado. Mas a pirueta que clama por atenção, neste discurso, é o recurso à mesma sequência (copy paste), já não para referir a cópia de algo a duas dimensões, mas para referir uma realidade tão complexa como uma fábrica. Na verdade, a sequência está, no uso, a fazer um percurso bastante previsível, e não deveremos admirar-nos de, com a natural evolução da língua, a sequência “copy paste” vir a usar-se generalizadamente desta forma. É provável que um dia a encontremos registada num dicionário de língua portuguesa, como substantivo (apesar de ser constituída por formas verbais). Como acontece com algumas palavras estrangeiras (veja-se, por exemplo, e-mail) que usamos no nosso discurso, ela será registada como composto de duas palavras inglesas, uma vez que a pronúncia que lhe damos é a inglesa, e não vejo grandes possibilidades de alteração deste aspeto. Deveremos portanto escrevê-la em itálico. E embora mantenhamos a grafia inglesa, é provável que venhamos a unir as duas palavras por um hífen, e a dispensar as aspas ou plicas. Assim: copy-paste.

 

Mas qual é a vantagem do composto copy-paste em relação à portuguesa palavra “cópia”, de eficiência largamente comprovada? Existe, de facto, um acréscimo semântico no composto copy-paste, que creio justificar o espaço conquistado na linguagem de todos os dias. Um copy-paste é uma cópia automática, sem intervenção humana, ou seja, é uma cópia rigorosa, sem tirar nem pôr. Havendo a consciência de que uma operação de “cópia” comporta desvios voluntários ou involuntários em relação ao original, o composto copy-paste tem a vantagem de referir uma cópia que não tem, nem é possível que tenha, diferenças em relação ao original. É o que se percebe do discurso falado, transcrito pelo Público, no dia 19-1-2015.

 

Ângela Santos