O globish não é bem inglês, mas é (quase) global

A ideia de uma língua comum para toda a humanidade tem ocupado, ao longo dos séculos, os sonhos de muitas pessoas. Algumas tentaram mesmo concretizá-lo. O padre Joahann Schleyer depois de, segundo contou, ter sido visitado por Deus, que lhe garantiu estar na hora de a humanidade falar a mesma língua, lançou mãos à obra de criação de uma língua que cumprisse a vontade de Deus. Em 1879, lançou o Volapük e o sucesso foi tal que, dez anos depois, já tinha um milhão de falantes.

Em 1897, foi a vez de um oftalmologista polaco, L.L. Zamenhof criar e apresentar o Esperanto, que teve também um grande sucesso.

Ambas as tentativas de criação de uma língua artificial, no entanto, acabaram por sucumbir à passagem do tempo. Mas a evolução tecnológica e a globalização do comércio acabou por aproximar a humanidade deste sonho antigo. Não através da criação de uma língua artificial, mas pelo «polimento» de uma língua natural (o inglês), até que esta pudesse servir a comunicação entre pessoas de muitas línguas maternas diferentes. Refiro-me ao Globish (<Global English), que resulta da simplificação do inglês, e tem hoje uma abrangência sem precedentes no mundo.

Marie Maegaard, uma sociolinguista da Univerdade de Copenhaga, não crê que esta tendência global seja facilmente reversível:

« We need to look very far into the future for English to cease becoming a dominant world language. English has achieved a global status that is so entrenched that it will take some effort to reverse. As a minimum, it would require a massive change of the global power structure. »

O reverso da medalha é que a hegemonia do Globish pode representar uma ameaça para a diversidade linguística no mundo. As línguas faladas por comunidades relativamente reduzidas correm o risco de desaparecer, se os falantes jovens deixarem de cultivar a respetiva língua materna. E por cultivar entenda-se: usá-la para a ciência, a literatura e todas as outras manifestações culturais. Segundo a UNESCO, o perigo é real: metade das cerca de 7000 línguas faladas em todo o mundo pode desaparecer até 2100…