Jovens-turcos

Todos já terão reparado que, nos últimos tempos, os noticiários e os jornais se encheram de uma misteriosa expressão: «jovens turcos». Como as imagens que acompanham a expressão não mostram jovens oriundos da Turquia, decidi investigar a expressão para melhor a compreender.

Os dicionários de língua portuguesa não a reconhecem. Nenhum dos que consultámos atribui ao adjetivo «turco» mais do que o significado esperado; dando conta de alguns contextos específicos, como o dos têxteis (pano turco), o da música (marcha turca, de compasso binário e ritmo acelerado) e o da náutica (peça de ferro que serve para içar). Silêncio total acerca dos «jovens turcos», porém.

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É nos média que encontramos mais frequentemente a expressão. Pelo contexto, percebe-se que assim se designam as novas gerações dos partidos políticos; aqueles que repentinamente vemos aparecer em redor dos líderes. Mais jovens, e recém-chegados, portanto. Mas porquê turcos?

Consultada a bibliografia histórica, rapidamente se descobre que a expressão «jovens-turcos» (com hífen) designa os membros de um movimento político turco, de natureza liberal e pan-islâmica, cujo objetivo foi a modernização das instituições políticas do Império Otomano. A agitação provocada pelo Comité da Jovem Turquia, associação fundada em 1868, conseguiu que o sultão promulgasse uma constituição e com ela instituísse um parlamento. À segunda sessão parlamentar, no entanto, o sultão suspendeu os trabalhos e dedicou-se a perseguições cuja violência lhe valeu o epíteto de «sultão vermelho»… Quando, depois de alguns avanços e recuos, os jovens-turcos chegaram finalmente ao governo, em 1909, acontece, segundo a Enciclopédia Verbo, uma transformação no movimento, que «de patriota e reformador se torna ultranacionalista e autoritário».

Evidentemente, quando os média falam de jovens turcos referindo protagonistas da política portuguesa, não estão a referir membros deste movimento do início do século XX, nem mesmo herdeiros, mais ou menos definidos, dos princípios deste movimento. Ao constatá-lo, procuramos a fonte possível da súbita emergência desta expressão. Encontramo-la na língua inglesa, onde a designação histórica já deu lugar à extensão de sentido que parece agora ensaiar-se nos média portugueses.

Diz o Dicionário Oxford on-line: «young person eager to radical change to the established order». Será este, portanto, o sentido que os média atribuem à expressão «jovens-turcos» e estará na língua inglesa a origem do empréstimo linguístico.

Na mesma língua inglesa, o cantor Rod Stwart celebrizou uma canção cujo título é precisamente Young Turks. Não é de política que se fala nela, no entanto. A canção é sobre dois jovens: Billy, que deixa a casa dos pais «with a dollar in his pocket and a head full of dreams»; e Patty que também partiu com «tears in her eyes». E depois, claro: «Happiness was found in each other’s arms, as expected, yeah». Mas Billy não deixa de escrever uma carta aos pais de Patty, explicando a decisão: «we’re both real sorry that it had to turn out this way / But there ain’t no point in talking when there’s nobody listening, so we just ran away».

Não consegui encontrar uma relação clara entre os young turks de Rod Stewart e os jovens-turcos da política… mas talvez faça um certo sentido.

Ângela Santos

Fonte: Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira, Edição Século XXI, Lisboa, São Paulo, 1999, vol. 16, p. 1031