Jogo de palavras

Uma das coisas boas de vivermos rodeados de dicionários e outras listas de palavras é podermos dedicar-nos neles àquilo a que os brasileiros chamam, por derivação de sentido, “garimpagem”. E que sentido desviado é este? Cito o dicionário Houaiss para melhor esclarecer: “pesquisa minuciosa de palavras, expressões, textos etc.” Pois é isto precisamente o que se faz, para distração momentânea, quando se vive rodeado de dicionários.

Às vezes não se encontra grande coisa, às vezes mesmo nada; apenas palavras feias, no som ou nas letras, ou palavras comuns, planas (ou aplanadas pelo uso). Em dias de maior frustração, todas as palavras escolhidas vão dar a espécies botânicas ou zoológicas desconhecidas; nomes onde a viagem de sentidos normalmente começa e acaba.

Às vezes, porém, conseguimos “passar de nível”, neste jogo. Acontece isto quando se tornam visíveis ligações entre palavras em cuja ligação nunca tínhamos pensado ou quando, pelo contrário, se revelam falsas ligações com que as aparências nos enganam. Hoje, por exemplo, saiu-me no jogo a palavra “anonário”, que rima com Letrário. E logo imaginei que, tal como “aquário” e “herbário”, designasse uma coleção ou um conjunto de… anonas?

Na verdade, “anonário” é uma palavra antiga, caída em desuso, que significa “impedir a carestia de mantimentos” e que se dizia de uma lei romana com este objetivo. Mas também se dizia das províncias romanas que pagavam os impostos com alimentos, ideia que até poderia ser recuperada… só para salvar da extinção esta simpática palavra.

Mas e as “anonas”, que até são um alimento? Em que ponto da história da palavra “anonário” se terão cruzado com ela? O jogo obriga-me a procurar ligações de todos os tipos e naturezas. Mas quando acedo a consultar o dicionário… descubro que afinal “anonário” e o fruto “anona” não se conhecem, só se cruzaram nos enganos a que a semelhança convida. O nome do fruto “anona” nasceu numa língua do Haiti, já desaparecida, o taino (anon). Passou depois para o espanhol (anona) e deste para o latim científico “Annona“.

A nota final do dicionário Houiss sobre a grafia do latim científico consola-nos gentilmente de todos os enganos: “a escrita Annona deve-se a uma confusão com lat. annona ‘provisões’, mas não restam dúvidas sobre o étimo deste t. da botânica.”.