Hop-on hop-off

Ainda remexendo nas minhas notas londrinas, pareceu-me valer a pena contar que fiz uma daquelas viagens em autocarro com primeiro andar sem capota, vulgarmente chamadas hop-on hop-off.Sentei-me no primeiro andar, que o sol enganava e os vidros são, apesar de tudo, um entrave a ver bem. E, claro, coloquei os auriculares nos ouvidos para ouvir a tradução portuguesa, lembrando-me do trabalho que a Letrário fez em Lisboa, para a Cityrama, de revisão dos textos em português, de tradução para 14 línguas estrangeiras, de locução por nativos e de gravação em estúdio.

A voz de pronúncia europeia que se ouvia no autocarro londrino era bastante clara e competente. Não me pareceu má a qualidade da tradução, que avaliei distraidamente com os olhos presos nas agitadas ruas londrinas, e nos monumentos sob escrutínio tão ansioso quanto preguiçoso dos inúmeros turistas. Mesmo assim, recolhi algum sangue, talvez mais resultante de um domínio pobre do português do que de má tradução.

“Churchill anunciou que nenhuma das obras deverá sair desta ilha.”

O futuro do indicativo (“deverá”) é, neste caso, despropositado: o ponto de referência do futuro é o presente, não o passado. A forma verbal acertada seria, portanto, a que indica o futuro do passado: “Churchill anunciou que nenhuma das obras deveria sair desta ilha.”

Fez-se notar também uma frase, repetida vezes sem conta, sobre um dos percursos do autocarro, chamado “Linha Azul”:

“Não pensem que só estão museus na Linha Azul”

Trata-se de uma tradução bastante inconsciente do verbo “to be“, que pode traduzir-se por “ser”, “estar” ou, quando precedido do advérbio“there”, traduz-se também pelo verbo “haver”. Creio que terá sido precisamente este o caso do original mal traduzido. Mas mesmo a opção certa – “Não pensem que há só museus na linha azul” – poderia ser melhorada para “não pensem que só se encontram museus na Linha Azul”.

Finalmente, houve um passo quase hilariante:

“A arquitetura é tipicamente georgiana, em homenagem ao rei Jorge I, que reinava na altura da construção.”

A confusão entre as palavras e as coisas é, na verdade, um dos erros mais comuns na escrita, e também um dos mais engraçados. Neste caso, quem escreveu quereria certamente dizer que certo tipo de arquitetura se chamou georgiana em homenagem ao rei. Não quereria dizer (embora o tenha feito) que certo tipo de arquitetura foi praticado em homenagem ao rei. A correção seria fácil:

“Esta arquitetura chama-se georgiana, em homenagem ao rei Jorge I, que reinava na altura da construção.”

E agora penso que poderei deixar em sossego as minhas notas londrinas, já um tanto amarelecidas pelo tempo.