Histórias londrinas com palavras

Tenho estado ausente deste espaço devido a uma viagem a Londres, que se revelou, no entanto, muito pródiga em histórias sobre palavras e, portanto, manteve sempre presente o blogue da Letrário*. A primeira surgiu materializada num dos pesadelos dos tradutores para português: numa estação de metro avisavam as pessoas de que estavam a ser filmadas por motivos de “safety and security”. Este par, que a um português desprevenido parecerá uma simples redundância, corresponde, na verdade, a conceitos distintos que o idioma português agrega numa só palavra. A palavra “security” está reservada para indicar especificamente o que pode estar em causa numa agressão física à integridade da pessoa.

A seguinte, surgiu, também no metro, num anúncio que prometia ajuda na criação de “nicknames” e num outro anúncio, que descansava todos os que têm saudades de ouvir canções de embalar. Pelo menos em Londres, já há uma linha telefónica exclusivamente dedicada, durante 24 horas, a fazer ouvir “lullabys”.

Houve também uma campanha, claramente inspirada na Adriana Calcanhotto, onde uma rapariga com ar sedutor se declarava perfeitamente capaz de passar sem o champô dela, tal como o champanhe sem as bolhinhas (fizz), “and roll without rock”. Este par pareceu-me especialmente extraordinário, por ser um passo em frente na abstração. Na verdade, se o champanhe e as bolhinhas existem para além das palavras e, portanto, para além da convivência destas, a separação das palavras “rock and roll” fá-las perder completamente o referente comum.

Depois, certa vez, perto de Portobello Road, entrei numa loja dedicada a especiarias, todas muito bem arrumadas em latas iguais. A etiqueta de uma delas anunciava “grains of Paradise” e diante dela me interroguei sobre o que poderia conter. Confesso que preferi não saber, pelo que que se alguém está aí a ler-me sabendo do que se trata, por favor, não diga nada.

Ao visitar, na Tate Modern, a exposição dedicada a Richard Hamilton veio mais uma palavra juntar-se ao rol das histórias, não pelo significado ou o contexto, mas pelo simples exotismo provocado pela procura difícil de uma expressão capaz: «the figure appears as a “mirrorical apparition” of Duchamp’s Bride»… Mirrorical?!… 

Mas, nesta mesma exposição, havia uma história de palavras contada pelo próprio Richard Hamilton. A história começa com a detenção, em fevereiro de 1967, de Mick Jaegger e Robert Fraser por posse de drogas. No julgamento que se seguiu, o juiz recomendou uma “swingeing sentence”, ou seja, uma sentença severa. Hamilton faz então uma série de obras a partir de uma fotografia dos dois algemados a sair (ou seria a entrar?) de um carro da polícia, e chamou à série “Swingeing London”. Brincava assim, criticamente, com a expressão “Swinging London”, que designa a efervescência e modernidade londrina.

No pub do bairro onde pernoitei, fui encontrar também mais uma história magnífica com palavras. Sobre as mesas havia uma caixinha com cartões de um conhecido jogo, que o pub organizava regularmente aos sábados à noite. Cada cartão continha perguntas de um lado e as correspondentes respostas, no verso. Uma das perguntas era precisamente sobre uma palavra: “What two words did the meat product Spam take its name from?” Para o caso de algum sábado à noite irem jogar ao Crooked Billet, em East End, deixo aqui a recomendação do scottish egg, da pale ale e a resposta àquela pergunta: “Spiced ham”.