Há seis anos? Ou há seis anos atrás?

«Six years ago…» dizia a personagem de J. K. Simmons emWhiplash, enquanto a câmara filmava o ator de baixo para cima sobre fundo negro para maior realce dos olhos azuis embargados; para maior realce da tragédia. O momento do filme com que J. K. Simmons ganhou o óscar de melhor ator secundário é um dos mais surpreendentes do filme, que, quase do princípio ao fim, nos mantém em sobressalto. Para mim, foi também um momento de confirmação da influência que a língua inglesa tem num dos erros de português atualmente mais frequentes.

Quando dizemos «Há seis anos…», o verbo «haver» permite aos falantes de português deixar estabelecido que os tais seis anos já passaram, ou seja, que são seis anos passados. Para exprimir a mesma ideia, os falantes de inglês, em vez de um verbo, usam o advérbio «ago», que colocam logo a seguir à indicação de quantidade e de tempo («six years»).

Ora, nós, que não precisamos de advérbio, porque o verbo é suficiente, fomos levados pela influência do inglês a acrescentar um advérbio onde ele não faz falta. E assim se ouve a cada dois passos dizer: «Há seis anos atrás…»; «Há muitos anos atrás…»; «Há uns séculos atrás…»; sendo certo que bastaria dizer «Há seis anos…»; «Há muitos anos…»; «Há uns séculos…».

Os Portugueses mostraram já capacidade para corrigir alguns frutos linguísticos da moda (lembram-se do «portanto…»?), ou de inconsciente influência estrangeira. Talvez este ainda não tenha raízes demasiado fortes na linguagem corrente, talvez a correção coletiva ainda seja possível. O tempo o dirá.

Ângela Santos