Geringonça

O vocabulário político português dos últimos meses viu-se inesperadamente aumentado de uma palavra que ninguém imaginava poder vir a pertencer-lhe: «geringonça». Mas tanto numa tradução quanto numa revisão devemos ter sempre presente o âmbito semântico de cada palavra, pelo que decidimos investigar a origem e as transformações desta, bem como a correspondente carga de sentidos que transporta. Aqui partilhamos as nossas conclusões.

Tudo começou no norte de França, onde em tempos medievais foi criada a palavra «jargon» ou «gergon» para designar o gorjeio dos pássaros, a partir da raiz «garg-», que significa «tragar, engolir, falar confusamente». No sul de França, onde se falava o antigo occitânico, a palavra adotou a forma «gergons», com o mesmo sentido que tinha no norte de França.

Levada do sul de França para Espanha, «gergons» cruzou-se com a palavra girgonça que, embora tivesse som semelhante, provinha da palavra francesa «jargonce», cujo significado era «jargão e gíria». Deste cruzamento entre palavra francesa e palavra espanhola (com origem francesa) nasceu a palavra «jerigonza», cujo sentido, na Espanha do século XIV, foi «linguagem especial, difícil de compreender».

«Jerigonza» passou a Portugal cerca de dois séculos depois, onde adotou a forma portuguesa «geringonça» e onde conserva o sentido com que é usada nos últimos meses, ou seja: «o que é malfeito, com estrutura frágil e funcionamento precário». Segundo o dicionário, também se pode usar com um sentido mais relacionado com a sua origem, ou seja, «linguagem vulgar, informal; calão, gíria».

Agora já sabemos. E o conhecimento é fundamental para fazer uma boa tradução e uma boa revisão. Mas como vemos também neste caso, as palavras não passam de uma para outra língua só através da tradução. Também acontece na evolução que as transforma ao longo do tempo, quer na forma quer no sentido.

 

Fonte: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa