Étienne Dolet e os Cinco Princípios Fundamentais para a Prática da Tradução

Étienne Dolet (1509-1546) foi um académico, tradutor e tipógrafo francês, considerado uma figura influente, mas polémica. O seu pensamento sobre os princípios fundamentais para a prática da tradução acabou por custar-lhe a vida.

Neste artigo, contamos a história da tradução que o condenou à morte sob acusação de heresia pela Inquisição e damos a conhecer o seu legado teórico na área da tradução.

Étienne Dolet  Heresia e morte

Dolet estudou Direito em Toulouse e já então foi preso, embora também tenha recebido o apoio de Francisco I de França. As sátiras que publicou valeram-lhe de novo a prisão em Lyon, entre 1542 e 1544, de onde saiu com a ajuda do Bispo de Tulle. Dolet viajou depois por Itália, mas, ao regressar a Lyon, voltou a ser preso.

Na Faculdade de Teologia da Sorbonne defendia-se que a tradução deveria ser literal, o que, na prática, atrasava o desenvolvimento da língua nacional, o Francês. Por isso, as ideias que defendeu sobre a tradução num tratado foram a gota de água num copo já cheio:

“Ao traduzir, não devemos ser escravizados ao ponto de traduzir palavra por palavra (…). Concentremo-nos no significado e em fazer que a intenção do autor seja expressa.”

Em 1546, Dolet foi condenado por ter traduzido do grego para o francês, e de acordo com o que defendia, um excerto do diálogo socrático Axiochus atribuído a Platão. Neste diálogo sobre a morte, Dolet fez um pequeno acrescento: «rien du tout»:

“É certo que a morte não está de modo algum entre os vivos; e quanto aos mortos, já cá não estão; por isso, a morte toca-os ainda menos. E, portanto, a morte não vos pode fazer nada, porque ainda não estais prontos para morrer, e quando tiverdes morrido, a morte também não poderá fazer nada, pois não sereis mais nada.”

Esta adição enfática foi vista como herege, pois considerou-se que continha a negação da imortalidade da alma. Dolet foi por isso acusado de heresia e condenado a morrer enforcado e queimado na fogueira, aos 37 anos. 

Conta a lenda que, a caminho da morte, ainda teve ânimo para explorar o facto de o seu apelido ser uma flexão do verbo latino dolre («sofrer»). Dolet proclamou o seguinte trocadilho:

“Non dolet ipse Dolet, sed pia turba dolet.”

Ou seja, «Dolet em si não sofre, mas a devota multidão sim».

Em 1989, foi erigida uma estátua de bronze na praça Maubert em Paris em homenagem ao tradutor, mas foi depois retirada e derretida, em 1942, durante a ocupação alemã da cidade.

Étienne Dolet  – Princípios fundamentais para a prática da tradução  Como já foi referido, Dolet afastou-se da prática de tradução literal dos textos, que era defendida, por exemplo, por S. Jerónimo. Segundo este, os textos religiosos deveriam ser traduzidos com a maior proximidade à letra, pois «até a ordem das palavras é um mistério».

Neste aspeto, Dolet aproximou-se mais de Lutero, que igualmente defendeu a linguagem fluida e coloquial, a aproximação ao espírito da época e o estilo natural. A tradução que Lutero fez da Bíblia para alemão foi da maior importância para a consolidação da língua literária alemã.

Em 1540, Dolet publica La manière de bien traduire d’une langue en autre onde expõe o seu pensamento sobre a tradução e defende cinco princípios fundamentais para a prática da tradução: 

  1. compreender o assunto do texto de partida,
  2. dominar a língua de partida e a de chegada,
  3. evitar a tradução «palavra por palavra»,
  4. utilizar a linguagem comum e corrente,
  5. compor o texto de chegada num estilo harmonioso e eloquente.

A proposta de Dolet, em especial o último aspeto, que sublinhava a importância de investir no estilo do texto de chegada, não correspondia à prática habitual e foi muito criticada. Mas a discordância de Dolet relativamente ao método de tradução literal era também a defesa do desenvolvimento da língua nacional (em detrimento do latim), que o método de tradução literal travava. 

Na Letrário, vivemos e trabalhamos seguindo estes princípios fundamentais da tradução, defendidos por Étienne Dolet. Se necessitar de ajuda profissional na tradução de algum texto ou documento, não hesite em contactar-nos.