Epifanias linguísticas – Os palitos são ¡espantosos!* ou ¿espantosos?

Retomando o tema das epifanias linguísticas, muitas são as que me acometem atravessando do espanhol para o português e vice-versa. Nada de estranho, considerando a origem destas duas línguas ou, melhor ainda, considerando o facto de, aparentemente, não terem divergido muito entre si.

Mas falemos de epifanias. Há não muito tempo, ouvi uma mãe espanhola dizer ao filho: “Coge el palito” (“Apanha o pauzinho”). Fez-se-me luz: os nossos palitos são nada mais nada menos do que “pauzinhos”! Esta era óbvia, mas quantos já a tinham visto?

E de outra vez, alguém dizia que ia beber uma cerveja “en la barra”, e novamente se acendeu a luz: o “bar” e a “barra” são uma e a mesma palavra. Nós teremos adotado a versão inglesa da palavra que, por sua vez, veio do francês “barre” (mais uma! – e daí também vindo o barrister, o advogado que vai à barra do tribunal).

Um dia, ao ouvir pela milionésima vez a palavra “basura” (“lixo” em espanhol) assaltou-me a possibilidade de a nossa “vassoura” poder ser o par português do lixo espanhol. Fui à procura e, de facto, existe a possibilidade de as duas palavras terem a mesma origem, embora o parentesco não esteja 100 % garantido.

Daqui poderíamos ir para os inúmeros falsos amigos que vêm negar, com grande eloquência, a facilidade com que os portugueses percebem / falam espanhol, levando-nos a cometer tremendas gafes: “desenvolver” significa desembrulhar e “desarrollar” significa desenvolver, “acordarse” é lembrar-se e “despertarse” é acordar, “zurdo” é canhoto e “sordo” é surdo, “rubios” são louros e “pelirrojos” são ruivos, “copos” são flocos e “copas” ou “vasos” são copos, “sótano” é cave e “buhardilla” é sótão, “trampa” é armadilha e “excrementos” são trampa, “ano” é ânus e “rabo” é pénis, “culo” é rabo, “cola” é cauda e “pegamento” é cola, “mantas” ou “cubiertas” são cobertas, mas “cubiertos” são talheres e “talleres” são oficinas, “oficinas” são escritórios e escritórios são “despachos” ou “bufetes”, “suceso” é acontecimento e “éxito” é sucesso, “bolso” é carteira e “bolsillo” é bolso, “bilhetes” são notas de banco e “entradas” são bilhetes, “graciosa” é engraçada e “engrasada” é engordurada, sobremesa é “postre” e “sobremesa” é conversa pós-prandial, pó é “polvo” e polvo é “pulpo”, “berro” é agrião e “agrión” é cardamomo, “exquisito” é refinado e “raro” é esquisito… poderíamos ficar aqui horas neste divertido exercício, mas avancemos.

Já as “gambas à (la) guilho” e as “gambas al ajillo” são toda uma outra história de deturpação / adaptação, do género “separadas à nascença”. Também na categoria “separadas à nascença”, embora por motivos da história mais remota da língua – logo mais fácil de aceitar –, se incluem palavras como o adjetivo “espantoso”, que em português significa fabuloso / incrível e em espanhol significa horroroso – nunca diga ao seu amigo espanhol que o quadro que ele pintou é espantoso, salvo se o quiser convencer a deixar de pintar. E se não se lembra de alguma coisa diga “No me acuerdo”, porque os “recuerdos” são aqueles presentinhos inúteis que trazemos da terra dos caramelos. E já agora, caramelo é uma categoria muito mais alargada em Espanha do que em Portugal, se um espanhol (fora de Badajoz) lhe oferecer “caramelos”, o mais provável é que acabe a comer rebuçados. Se quiser caramelos, tal como os conhecemos, tem de os pedir “blandos”, ainda assim pode apenas ter direito àqueles doces tipo “sugus”.

O espanhol e o português são lugares muito diferentes…

 

* Curiosidade: Há uns 40 anos, poucas eram as revistas de social que chegavam ao nosso mercado e que as leitoras da classe média podiam comprar e conseguiam ler. Ora, a sempiterna revista espanhola  ¡Hola! (1911- ) fazia as delícias das senhoras de então (não se esqueçam de que todos os portugueses percebem espanhol), nos cabeleireiros e em casa. ¡Hola! mais não quer dizer do que Olá!, mas, devido ao ponto de exclamação invertido inicial e ao desconhecimento de tal sinal de pontuação por parte das leitoras portuguesas (e da própria palavra), a Hola espanhola foi durante décadas a nossa querida “iola”.

 

Nazaré Carvalho