Epifanias linguísticas – Beefs & Frogs

De vez em quando acontecem-me epifanias linguísticas, nada de muito grave – coisa que se resolve com bons dicionários que permitam fazer o caminho até à etimologia das palavras. O que se passa é que, não raro, estabelecem-se no meu cérebro ligações entre palavras que normalmente convivem, sem suspeitarmos de que sejam da mesma família. Quando se dá o clique costumo ir atrás do fio até encontrar a meada e frequentemente confirmo que estas palavras estão mesmo ligadas pela raiz.

Pois, ao longo do tempo, tenho vindo a descobrir fortes laços de parentesco entre dois idiomas que nasceram de famílias afastadas. E se vos disser que a língua inglesa está pejada de palavras francesas? Para quem não anda nos terrenos da linguística, esta afirmação pode ser chocante. Como é sabido, por motivos históricos, os ingleses (beefs*) e os franceses (frogs*) têm fortes reações alérgicas recíprocas. Até há pouco tempo, teimavam, inclusivamente, em não falar o idioma do vizinho ao visitarem os países respetivos – assisti há uns anos a um episódio em que um casal de ingleses, num restaurante, em Paris, insistia em falar inglês como se não houvesse outra língua e o empregado de mesa insistia também em não arredar do seu francês – os ingleses desistiram e saíram furiosos sem chegarem sequer a beber água: gauloises 1- brits 0. Os frogs e os beefs não se dão especialmente bem, já sabemos, mas suspeito de que poucos de entre eles têm grande consciência do peso que a língua francesa tem na língua inglesa. Para quem ainda não tenha percebido, a cultura e a moda são dois fatores realmente poderosos e, nestes particulares, os nossos amigos franceses marcaram o mundo de forma indelével. Passemos então a identificar os “invasores”. Comecemos logo pela palavra “beef”, que tem origem, nada mais, nada menos do que no francês “boeuf”. E a lista é interminável. Acredita-se que 45 % das palavras inglesas têm origem no francês, o que deverá rondar as 80 000 palavras.

Já pensou que quando em inglês diz “Sure!” a expressão original é o “Bien sure!” do francês? E que o “alas” dos ingleses é o “hélas” dos franceses? E que o “advertisement” vem do “avertissement”?  E que o tão inglês “dandelion” é o “dent-de-lion” dos franceses? Sente-se, então, que se segue uma pequena lista das mais correntes: air – air, attitude – attitude, bottle – bouteille, chamber – chambre, farm – ferme, flower – fleur, forest – forêt, hotel – hôtel, image – image, joy – joie, lamp – lampe, miracle – miracle, money – monnaie, parachute – para-chute, parent – parent, siege – siège, stranger – étranger, source – source, to engage – engager, to marry – se marier, to mock – se moquer de, to reinforce – renforcer, table – table, tablet – tablette, voyage – voyage, mercy – merci…

Tenham mercê dos britânicos, que não é fácil sobreviver a tamanha invasão da cultura francesa. Mas, se não os podemos vencer podemos sempre adotá-los / adaptá-los, e os ingleses fizeram-no de tal modo que, se não formos à procura do fio que nos leve até à meada, não encontraremos a “prova do crime” – e mesmo que a forma ainda se reconheça, a pronúncia afasta-nos em absoluto da origem. Nisto de adotar e adaptar palavras estrangeiras, os ingleses, franceses, espanhóis e brasileiros são profissionais. Já nós, tendemos a ser puristas e a manter as palavras na forma original, deixando as bandeirinhas dos “invasores” à vista no nosso mapa.

Aqui fica mais um tema para próximas croniquetas. Sim, que isto da língua é bem mais sério do que os nossos governantes alguma vez se dignaram pensar. E, a propósito, porque será que não temos uma academia das letras? Não sei se repararam que o último grandeDicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – o da acesa polémica do “bué”, entre outras – foi obra da Academia das Ciências de Lisboa (2001).

 

Honi soit qui mal y pense!

 

* Os franceses designam os ingleses por “rosbif”; consta que inicialmente apenas porque eles cozinhavam assim a carne (“roast beef” – e daqui virá também o nosso “rosbife”, designação para uma determinada peça da carne de vaca cozinhada de uma forma específica), ápodo que posteriormente se tornou insultuoso. Já os ingleses designam os franceses por “frogs”; comummente pensa-se que por comerem rãs, mas os estudiosos têm uma explicação mais científica; extensa demais para partilhar aqui. Hoje em dia, este ápodo também ganhou uma carga negativa que não teria inicialmente.

 

Nazaré Carvalho