ENTREVISTAS À DIÁSPORA: VIRGÍNIA TRIGO

Virgínia Trigo dirige atualmente os Programas de Doutoramento do ISCTE na China, aprovados pelo Ministério da Educação chinês. Começou a carreira académica em 1988, depois de ter fundado duas empresas industriais. Trabalhou em Macau, entre 1989 e 2000, primeiro na Universidade de Macau, depois como presidente e fundadora do Instituto de Formação Turística. Além da experiência profissional na China, onde reside atualmente, acumulou outras experiências internacionais no Japão, nos EUA, Timor e Moçambique.
 
Doutorou-se em 2003 pelo ISCTE, com uma tese sobre empreendedorismo e gestão estratégica na China. É autora de diversos artigos e livros sobre a sua área de especialidade.
 
 
Letrário – Saiu de Portugal por falta de alternativas? Ou porque fazia parte dos seus planos sair de Portugal e passar por uma experiência profissional no estrangeiro?
Virgínia Trigo – Saí de Portugal numa posição algo confortável, porque fui requisitada para lecionar na Universidade de Macau. A ideia era ir por dois anos, mas acabei por ficar 14 anos fora, 12 deles em Macau – seis na universidade e seis como presidente fundadora do Instituto de Formação Turística e da Escola Superior de Turismo – e dois em Cantão para concluir o meu doutoramento sobre o renascimento da atividade empresarial privada na China. Neste período de tempo, entre 1989 e 2003, também vivi um semestre no Japão e outro nos Estados Unidos em Wisconsin. Quase nunca vim a Portugal, apenas duas ou três vezes e nunca por mais de uma semana. O problema é que quando se está tanto tempo fora e completamente desenraizado do que se passa em Portugal, começamos a construir uma imagem idílica do nosso país, que em nada corresponde à realidade. Lembro-me de pensar que muitas coisas que eu vivia e que achava mal nunca se passariam em Portugal. Quando regressei, o choque e o desencanto foram enormes; nunca mais consegui adaptar-me. Tive um choque cultural grande, quando fui para Macau, mas esse choque foi muito maior e mais doloroso quando regressei. Só pensava em sair e estive um semestre nos Estados Unidos em Berkeley e outro em Timor, continuando a manter ligações muito estreitas com universidades, alunos e amigos na China.
Em 2008, comecei a construir os programas de doutoramento do ISCTE na China e pouco depois mudei-me mais uma vez para Cantão, até hoje. Vivo entre duas cidades na China: Cantão e Chengdu.
L – Acha que há uma ideia feita sobre os Portugueses na China? E os Portugueses que vivem ou frequentam a China têm uma opinião comum sobre os chineses?
VT – Não sinto que me tratem de uma forma diferente de outros estrangeiros. O meu trabalho é muito específico, em contexto universitário e essencialmente com alunos de doutoramento, com um elevado grau de maturidade e sucesso profissional, e sinto que me respeitam muito. Os Chineses têm uma grande consideração pela educação e pelos professores e é muito gratificante sentir esse respeito e a valorização que dão ao nosso trabalho. Não haverá melhor profissão para se trabalhar na China. Portugal é um país que eles reconhecem da história que aprenderam no secundário, sabem que já foi um país muito importante e interrogam-se (e interrogam-me) como pode ser agora um dos países menos desenvolvidos da Europa ocidental. Identificam também o Figo e o Cristiano Ronaldo (conhecido por C. Lo) e, como o novo presidente chinês encoraja muito a prática do futebol, começam agora a olhar-nos como um país especial nessa área. Creio aliás que grande parte dos portugueses a viverem atualmente na China são treinadores de futebol. Não existem muitos portugueses na China e como o país é muito grande somos partículas ínfimas no oceano. Nunca nos encontramos. Porém, sei que os portugueses que visitam a China levam uma ideia pré-concebida de país atrasado e ficam chocados com o desenvolvimento à sua volta.
L – O que estranhou mais ao mudar de um modo de vida português para um modo de vida no estrangeiro, se é que estranhou alguma coisa?
VT – Percalços acontecem-me todos os dias e acontecem-me sempre coisas novas, de que não me tinha lembrado ou de que não estava à espera, mas uma coisa que aprendi é estar sempre preparada para novidades. A China é um país surpreendente, com um dinamismo incrível, muito resiliente e com uma capacidade enorme de encontrar soluções para os problemas do dia a dia. É claro que, no início, tive um choque cultural, até porque em 1989 não havia Internet e a minha informação sobre a China era muito reduzida. Lembro-me de que o primeiro choque foi todas as pessoas me parecerem iguais. Ali estavam 40 alunos num anfiteatro, a olhar para mim, todos vestidos da mesma maneira, em jeans e t-shirts, e todos iguais. Não conseguia distinguir os rapazes das raparigas nem uns dos outros. Para disfarçar, comecei a chamá-los pelos nomes lendo a lista de presenças, mas era a risota total. Estava longe de saber que a mais pequena diferença na pronúncia pode soar a algo completamente diferente e nem sempre muito conveniente… É evidente que tenho dezenas de episódios resultantes do choque cultural, mas não caberiam aqui.
L – Os Portugueses falam muito da saudade da culinária, das pessoas, mesmo dos lugares ou da luz. Mas a saudade de falar português existe?
VT – Hoje, ao fim de mais de 25 anos, a China é mais a minha casa do que Portugal é a minha casa, por isso, as saudades não são muitas. A China, sobretudo nas províncias onde trabalho (Sichuan e Cantão), tem uma culinária muito diversificada e fantástica, não dá para nos aborrecermos e há coisas de que gosto muito, como as massas, os vegetais, as panquecas etc. As cidades onde trabalho são muito sofisticadas e existem muitos restaurantes de comida ocidental e supermercados onde podemos encontrar praticamente de tudo. A única coisa que ainda faltava a China produzir bem era o pão. Mas há cerca de dois meses este problema foi ultrapassado: abriu perto de mim um estabelecimento que vende baguetes tão boas como as melhores de França. O dono nem consegue perceber como lhe estou agradecida. Não sinto grande necessidade de falar português, até porque tenho muitas oportunidades de o falar com colegas meus do ISCTE, que frequentemente se deslocam à China para dar aulas, e ao telefone com a família.
L – Sente vontade de falar português, quando tem de se exprimir sobre assuntos mais complexos? Ou já é indiferente?
 
VT – É-me indiferente. Leio muito em inglês e a maior parte dos termos que tenho de utilizar para situações mais complexas aprendi-os primeiro em inglês. Depois tenho de fazer um esforço para encontrar a melhor forma de os traduzir para português.
 
L – Ainda sonha em Português? E ainda pensa em Português?
VT – Penso e sonho nas duas línguas, consoante as situações ou os assuntos, mas ainda penso e sonho mais em Português.
L – Alguma vez utilizou o português para que não a entendessem?
VT – Sim, várias vezes. É muito útil, quando, no decurso de negociações, queremos trocar impressões com os nossos colegas sem que os outros nos entendam. Mas temos de o fazer sempre com um grande sorriso na cara, pedindo desculpa por estarmos a falar em português; no entanto, é mais fácil para nós trocar ideias na nossa língua. Não podemos porém abusar disso.
L – Domina o mandarim? Como foi a aprendizagem de uma língua tão afastada do português?
VT – Eu não domino o mandarim. Não é necessário falar mandarim para se viver na China e trabalhar na minha área. Quando cheguei a Macau, tentei aprender cantonense, mas é muito desmotivador porque na China as pessoas não estão à espera de que um estrangeiro fale a sua língua e o ouvido não está sintonizado para nos perceber. Além disso, o cantonense é ainda mais difícil do que o mandarim, tem muito mais tons, e a aprendizagem é desencorajadora. Não aprender mandarim foi uma opção, porque isso implicaria pelo menos dois anos a tempo inteiro exclusivamente dedicados à aprendizagem da língua, e eu nunca dispus desse tempo. Conheço muita gente que estuda a língua há vários anos e nunca consegue atingir um nível de proficiência para, por exemplo, discursar em público. A minha opção foi, desde sempre, trabalhar com as pessoas, cultivar as amizades, tentar compreender e gostar da cultura o mais possível e acho que isso é muito importante. No meu trabalho, existem excelentes intérpretes e há muita gente a falar inglês. Por outro lado, embora não fale, percebo alguma coisa, sei algumas palavras-chave e consigo aperceber-me do que está a correr bem ou mal. No dia a dia, as aplicações móveis de tradução são excelentes. Além disso, a China é muito inovadora e está agora muito virada para os serviços, pelo que a vida é muito facilitada através de inúmeras aplicações móveis que existem para tudo e antes de existirem em todo o mundo. Posso, por exemplo, pagar as castanhas assadas com o meu telemóvel. Quanto tempo será necessário para que isso seja possível em Portugal?
L – Como descreveria a relação dos chineses com o trabalho?
VT – Há de tudo, como em todo o lado, mas em geral o chinês é muito dedicado ao trabalho e vive para trabalhar. Eles admiram-se e desconfiam do modo de trabalhar da Europa, onde se trabalha para viver.
L – Que lhe parece descrever melhor a cultura corporativa (negociação, comunicação etc.) dos chineses?
 
VT – Os chineses são negociadores exímios, muito habituados ao pensamento estratégico e com um grande pragmatismo. A este respeito e passando a publicidade, sugiro a leitura do meu livro Como Negociar na China. O principal elemento na cultura negocial chinesa é a confiança, que só se constrói com o tempo, com o cultivar de amizades e relações. Isso exige tempo, dinheiro e muita, muita paciência. Quando me perguntam a razão do nosso sucesso na China, só posso responder que são 25 anos de nunca, nunca ter desistido da China.
L – Com base na sua experiência, que conselhos daria a uma empresa portuguesa que quisesse apostar na internacionalização para a China?
VT – Qualquer empresa deve avaliar muito bem a sua disponibilidade (em tempo e dinheiro) para se dedicar ao mercado chinês e estar preparada para que isso possa levar muito tempo. O mercado chinês é muito diferente de qualquer outro que a empresa possa ter encontrado antes. A estratégia “kleenex” (limpar e deitar fora) não resulta, e pode sair cara. Uma presença física permanente no mercado é também muito importante. Também deve ter em atenção que apenas interessam produtos de elevada qualidade ou em que exista uma reconhecida transmissão de conhecimento.
L – Quais são os principais erros dos Portugueses quando tentam entrar no mercado chinês?
 
VT – O erro foi precisamente o não terem em atenção que é necessário tempo e dinheiro para se investir no mercado.Outro erro foi pensar que os chineses não reconhecem a qualidade e que qualquer produto pode ser vendido. As empresas portuguesas têm também um problema de quantidade (ou falta dela) para satisfazer um mercado tão grande e, como não têm também a tradição de se associarem, acabam por perder oportunidades.
 
L – Tenciona voltar a Portugal?
 
VT – Francamente não lhe sei responder a essa pergunta. Nos próximos anos não irei voltar, depois não sei. Tudo depende da necessidade que eu tenha de partir.