ENTREVISTAS À DIÁSPORA: Ricardo Mateiro, Manager na Bain & Company, em Londres

RICARDO MATEIRO é atualmenteManager na Bain & Company, em Londres, onde se encontra desde 2011. A primeira experiência profissional foi ainda em Portugal, na área de Strategy and Business Development da Portugal Telecom. Lecionou depois Finance na Kellogg School of Management em Chicago, em 2010, e estagiou no J.P. Morgan, em Nova Iorque. Em 2011, fez também um programa de exchange durante um breve período em Singapura. Licenciou-se em Gestão, em 2006, pelo ISEG – Universidade Técnica de Lisboa e, em 2011, concluiu o MBA, na Kellogg School of Management em Chicago.

L – Saiu de Portugal por falta de alternativas? Ou porque fazia parte dos seus planos sair de Portugal e passar por uma experiência profissional no estrangeiro?

RM – Saí primeiro para fazer o MBA em Chicago. O objetivo inicial era viver dois anos nos EUA, fazer o MBA em Chicago, e voltar a Portugal. Mas depois acabei por me decidir por Londres, onde estou a viver desdeagosto de 2011.

L – Notou alguma diferença entre ser português a trabalhar nos Estados Unidos, e ser português a trabalhar em Londres?

RM – Penso que há diferenças, sim. Nos EUA, Portugal era demasiado pequeno ou quase nada falado; as pessoas perguntavam-me onde era Portugal – o que não fazem com outros países como a Espanha, França ou Alemanha, para referir apenas países europeus. Entretanto, embora não pelos melhores motivos, Portugal ultimamente teve muita publicidade. Começou a falar-se mais de Portugal por causa da crise e de todos os problemas que houve, pelo que hoje em dia Portugal lá,  já não é assim tão desconhecido.

Em Londres, Portugal é muito conhecido, e curiosamente encontram-se duas visões muito diferentes do País. Em certos meios, há uma visão muito positiva: os portugueses são bem vistos, como gente trabalhadora e que traz muito valor, além de serem de um país fantástico, onde se passam férias muito boas. Noutros meios londrinos, não é bem assim: os Portugueses são vistos como um dos povos mais pobres da Europa; ainda conotados com uma imigração sem formação, e que vem para o Reino Unido à procura de trabalho de baixo valor.

L – E qual lhe parece ser o reverso da medalha, ou seja, que opinião têm os Portugueses a trabalhar em Londres sobre os Ingleses?

RM – Há dois tipos de Ingleses: os Ingleses que vivem em Londres, cujas características são muito específicas, e depois há os ingleses do resto do país, que respondem mais à ideia comum sobre os Ingleses. Londres é atualmente uma cidade muito aberta, muito internacional, talvez a cidade mais cosmopolita do Mundo. Os londrinos que cá vivem têm uma mentalidade muito aberta, estão perfeitamente habituados a viver com pessoas de outras nacionalidades, muitíssimo mais que os Portugueses. Eu lembro-me de que, quando trabalhava em Portugal, era estranho haver pessoas estrangeiras com formação qualificada em posições de alto nível a trabalhar em Portugal. Em Inglaterra é normalíssimo, pelo que é uma situação bem vista. Os Ingleses são muito diferente de nós: culturalmente têm um humor e uma visão do ser humano muito mais cínica do que os portugueses. São muito mais fechados, têm hábitos e valores muitos diferentes, e a relação com o trabalho é também muito diferente.

L – Como descreve essa relação dos Ingleses com o trabalho?

RM – Eu diria que os Ingleses sabem trabalhar melhor que nós, mas não por fazerem um trabalho melhor ou mais inteligente. A diferença está em que eles conseguem estruturar-se muito mais a trabalhar e por conseguinte são muito mais focados; perdem-se menos com distrações e devaneios; vão direitos ao que precisa de ser feito. Como são muito focados nos objetivos, conseguem fazer o mesmo em muito menos tempo e acabam por trabalhar menos horas nos escritórios. De um modo geral, as empresas inglesas não são melhores que as empresas portuguesas, algumas funcionam tão mal como em Portugal, muitas vezes pior. Têm é a vantagem de estarem numa economia muito maior, de serem muito mais abertos e de terem uma marca que todo o mundo adora. Toda a gente gosta de viver em Londres e gosta de consumir o que é londrino. Se nós fôssemos assim em Portugal, e se tivéssemos estas circunstâncias, não duvido de que as nossas empresas estariam financeiramente muito melhor e de que cresceriam muito mais.

 

L – O que estranhou mais ao mudar de um modo de vida português para um modo de vida no estrangeiro, se é que estranhou alguma coisa?

RM – O modo de estar altera-se bastante, e estranha-se, sobretudo quando passamos a viver imersos em culturas anglo-saxónicas, cujos valores são muito diferentes. O modo de estar com os amigos é muito diferente, o modo de pensar na família também, o relacionamento entre pais, filhos e irmãos é mais distante; as relações entre amigos são muito mais relações de circunstância. Estas diferenças de relacionamento entre as pessoas acabam por afetar o modo como estamos noutra cidade e o modo como pensamos sobre as coisas. Tal como em Londres, também nos Estados Unidos, é raro as pessoas terem amigos de longa data, sendo muito habituais as amizades de circunstância, o que não tem nada que ver com a nossa cultura. Também o facto de a comida ser diferente altera obviamente o nosso modo de viver o dia-a-dia.

L – Tem filhos pequenos que já o tenham levado a pensar na questão da aprendizagem linguística em contacto com duas línguas?

RM – Sim, tenho uma filha de oito meses, e gostava que fosse bilingue. Como a mãe é portuguesa, terei de contar com a escola e com os amigos dela para fomentar o bilinguismo.

 

L – Então não tenciona voltar para Portugal?

RM – É uma boa questão, ainda não sei. Eu gostaria de voltar, gosto muito de Portugal, é um país fantástico e sempre que posso vou a Portugal, mas tenho uma carreira confortável em Londres, atualmente. Não quero dizer que fique em Londres para sempre, isso não quero. Mas só penso sair se tiver uma proposta interessante para a minha carreira. Estou muito bem aqui.

 

L – Alguma vez teve saudades de falar português?

RM – Claro que sim. Eu cresci em Portugal, o português continua a ser a minha língua materna. A saudade começa a surgir mais quando já estamos fora há mais tempo. Por exemplo, quando eu estava nos EUA tentava ir a Portugal de três em três meses. Mas quando não conseguia, por questões profissionais, ficava com mais saudades de Portugal e de falar português. De qualquer forma, como tenho uma relação muito forte com os meus irmãos, era raro o dia em que não falava português.

 

L – Sente vontade de falar português quando tem de se exprimir sobre assuntos mais complexos? Ou já é indiferente?

RM – No início sentia. Não por dificuldades de expressão, mas por haver uma ou outra expressão que me era mais confortável dizer em português. Nas consultas médicas, por exemplo, é sempre um pouco difícil explicar aspetos técnicos, ou aspetos muito específicos com vocabulário que não utilizamos no dia-a-dia.

 

L – Ainda pensa em português?

RM – Neste momento, acho que é já um misto… há certas áreas em que me é mais fácil pensar em inglês e outras em que é mais fácil o português. Quando estou a pensar, a escrever ou a falar, há temas que saem naturalmente em português e outros em inglês.

L – Alguma vez utilizou o português para que não o entendessem?

RM – Claro que sim, imensas vezes. Eu viajo muito por razões profissionais: já estive muitas vezes na Irlanda e nos países nórdicos. E quando percebo que não há ninguém à minha volta que fale português, às vezes desabafo em português…

 

L – Sente-se capaz de traduzir tanto para inglês como para português?

RM – Sim, diria que sim.

 

L – Qualquer texto, sobre qualquer assunto?

RM – Não, isso não. Como lhe disse, ainda hoje, quando vou ao médico, enfrento alguma dificuldade em explicar-me. Na área empresarial, pelo contrário, é mais fácil compreender um texto em inglês do que em português, até porque nem sequer cheguei a conhecer alguns temos em português. Mas, no que diz respeito a temas comuns, não sinto dificuldade nenhuma.

 

L – Com base na sua experiência, que conselhos daria a uma empresa portuguesa que quisesse apostar na internacionalização?

RM – Penso que é muito importante compreender a realidade do país onde se pretende vender. É importante perceber como é que o outro povo pensa e ao que dá valor. Conheço empresas que não conseguem exportar para países anglo-saxónicos porque lidam mal com os prazos, e com o cumprimento da palavra dada. Imagine a situação em que se faz uma encomenda e ela chega uma semana depois do acordado. Talvez na sociedade portuguesa isto seja mais ou menos aceite, mas em muitas outras culturas é inaceitável. Os outros povos valorizam aspetos que nós não valorizaríamos em Portugal, e temos de ter isto em atenção. Outro aspeto importante é pensarmos na maneira de alavancarmos a rede portuguesa, uma vez que somos poucos mas estamos espalhados um pouco por todo o lado. Os americanos fazem isto muito bem, mas nós não aproveitamos este facto. Devemos tentar perceber quem está no mercado que pretendemos abordar, investigar quem possa ser interessante para a nossa empresa e depois contactar e explicar o que temos para oferecer. Assim, se algum dia precisarem dos nossos produtos, poderão lembrar-se de nós. Os americanos são exímios a fazer isto, é algo natural para eles, já em Portugal ainda se entende isto como um pedido de favor. Devíamos aproveitar melhor a rede de portugueses espalhados pelo Mundo.

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