ENTREVISTAS À DIÁSPORA: Paulo Moreira, doutorado em Health Management pela Universidade de Manchester

PAULO MOREIRA começou a vida profissional no Reino Unido, onde trabalhou e estudou durante oito anos, com uma curta passagem pela Alemanha. Regressou a Portugal para assumir diversos cargos de direção, tanto no setor privado quanto no público. Voltou a sair de Portugal, para trabalhar na Suécia, e tem desde 2008 uma atividade profissional internacional de colaboração com várias entidades, incluindo atualmente uma editora científica internacional sediada em Londres. Doutorou-se em Health Management pela Universidade de Manchester.

 

Letrário – Como se sente visto por ser português, no seu contexto de trabalho ou nos diversos contextos sociais? Acha que há uma ideia feita sobre os Portugueses? E os Portugueses que aí vivem têm uma opinião comum sobre os Ingleses?

 

Paulo Moreira – Nos anos em que tenho trabalhado e / ou vivido em diversos países europeus (Inglaterra, Suécia, Alemanha), nos últimos 20 anos, tenho visto uma evolução gradual dessa imagem. Lembro-me de que, no início, ninguém acreditava que eu fosse português. Não era baixo, nem gordo, nem tinha bigode e, ainda por cima, falava inglês e alemão muito bem, além de ser muito qualificado, o que não confirmava o estereótipo nem correspondia à baixa expetativa nem à imagem que tinham dos portugueses. Passei por muitas experiências em Inglaterra, na Alemanha e na Suécia em que as pessoas pensavam sempre que eu devia ser francês, ainda hoje não sei porquê. Por caricato que pareça,acredito que pessoas como o Luís Figo, o José Mourinho, o Saramago, a Paula Rego e até, em menor grau, o Durão Barroso recriaram a imagem do português. Ou seja, estas figuras contribuíram para que, pelo menos, as pessoas nestes países fossem admitindo que, ao contrário da imagem que foram desenvolvendo ao longo dos anos, algo tinha mudado e nem todos os portugueses se encaixavam no estereótipo negativo de ignorantes, com poucas qualificações e com certos atributos físicos. Os Ingleses, os Alemães ou os Suecos têm ideias feitas sobre os portugueses como têm de outras culturas. Julgo que, em Portugal, algumas pessoas também têm ideias feitas sobre estas culturas e pessoas. São ideias sempre redutoras e enganadoras. Claro que os portugueses que vivem noutros países vão desenvolvendo opiniões sobre os cidadãos de origem destes países, umas vezes mais equilibradas, outras vezes menos equilibradas. As pessoas são iguais, dada a sua natureza humana. Os pormenores culturais, a partir de certo contexto socioeconómico, começam a esbater-se na medida de uma profunda identidade europeia, ainda que sobretudo com base nos hábitos e símbolos de consumo.

 

L – O que estranhou mais na mudança de vida e de cultura? Aconteceu-lhe algum percalço, durante a fase de adaptação?

 

PM – Já vivi antes em Inglaterra e em outros países europeus. Não estranhei nada, mas admito que as pessoas estranhem sobretudo os hábitos alimentares e o clima. As relações e o contexto de trabalho são sempre os aspetos comparativos mais positivos a favor dos ingleses. Em Inglaterra, as pessoas são valorizadas pelo seu investimento na formação, capacidade de trabalho e iniciativa. Em Portugal, não. As organizações em Portugal, públicas e privadas, salvo raras exceções, continuam dominadas pelos princípios da valorização da mediocridade em prol da proteção de líderes sem grandes competências, o que estabelece climas organizacionais extremamente desmotivadores. Este é o primeiro choque positivo que as pessoas podem sentir em Inglaterra. A simplicidade, honestidade nas opiniões e a transparência são três caraterísticas que se respiram na cultura das organizações em Inglaterra, sendo exatamente o oposto em grande número de organizações em Portugal. Como tenho vivido e trabalhado frequentemente e durante muitos anos em contexto de cultura organizacional inglesa ou britânica, os percalços que tenho tido são sobretudo com os contactos e o trabalho com organizações portuguesas.Por exemplo, desde muito cedo apreendi e assumo o princípio de que toda a comunicação nas empresas e organizações deve ser escrita. Tudo deve ser registado. Em Portugal, sobretudo na função pública, assume-se exatamente o contrário: “nada se deve colocar por escrito para não sermos responsabilizados nem usarem os escritos contra nós”. Ouvi esta “regra” de cultura organizacional do funcionalismo público português muitas vezes. É um choque cultural e, devido à minha adoção da abordagem inglesa, tenho tido muitos percalços em Portugal.

 

 

L – Os Portugueses falam muito da saudade da culinária, das pessoas, mesmo dos lugares ou da luz. Mas a saudade de falar português existe?

 

PM – Acontece, sim. Vi-me em vários momentos nas minhas experiências de vida noutros países, com saudades de falar e ouvir a nossa língua. Ainda assim, temos a vantagem de ter sempre comunidades brasileiras e africanas, por vezes juntas, a quem nos podemos ligar para este efeito. Fiz isto nos três países em que vivi, precisamente pela necessidade de falar em português e porque, em alguns contextos em que vivi e trabalhei, havia muito poucos portugueses.

 

L – Sente vontade de falar português quando tem de se exprimir sobre assuntos mais complexos, ou é já indiferente?

 

PM – Para mim, já é indiferente. Tenho por vezes dificuldade em encontrar termos em português nas áreas técnicas e científicas em que trabalho.

 

L – Ainda sonha em português? E ainda pensa em português?

 

PM – Já há alguns anos que tenho tendência a pensar em inglês. Dos sonhos, raramente me recordo.

 

L – Alguma vez usou o português para que não o entendessem? Pode contar-nos a situação?

 

PM – De uma forma humorística, devo dizer que, pela minha experiência,usar o Português como “língua de conspiração” é arriscado. Falo russo, língua que é mais adequada para este efeito. Há muita gente a falar português e quem fale espanhol, francês ou italiano pode entender o que estamos a comentar. Já me aconteceu o contrário: uns espanhóis, não sabendo que eu era português, fizerem comentários menos abonatórios sobre uns colegas meus ingleses durante uma reunião de trabalho… são situações potencialmente engraçadas.

 

L – Sente-se capaz de traduzir tanto para inglês quanto para português?

 

PMÉ mais difícil traduzir de inglês para português. A nossa língua é gramaticalmente muito mais exigente e diversificada no vocabulário. 

Apresentação do projeto aqui.