Em todas as ruas…

Gosto de palavras fora dos livros, dos jornais, das revistas. Gosto de descobrir palavras nas paredes, no chão, nos degraus – palavras que se soltam e ganham vida noutros espaços; palavras que alguém decidiu inscrever em local mais ou menos visível e através das quais entendeu expressar-se.

Esta coluna, que inaugura também uma nova secção do blogue da Letrário, irá apresentar fotografias de palavras, frases ou expressões que “decidem” colocar-se no meu caminho e que, por motivos diversos, me fazem refletir e me levam a partilhar essas reflexões com os leitores.

A primeira imagem e aquela que dá título a esta secção é um verso de um poema de Mário Cesariny, que li quando tentava atravessar um troço da Avenida de Roma, em Lisboa. É um título que abarca todas as outras fotografias que convosco partilhar porque, efetivamente, quando caminho pela rua estou atenta a todas as palavras que se cruzam no meu caminho, seja em anúncios, placas indicativas, sinais ou, mesmo, como é o caso, palavras escritas no chão, outras vezes nas paredes, nas caixas elétricas, por todo o lado. Daí que, dirigindo-me diretamente à palavra escrita fora do seu contexto possa fazer a seguinte afirmação: «Em todas as ruas te encontro»!

Este primeiro verso de Cesariny – «Em todas as ruas te encontro» – continua com a afirmação: «em todas as ruas te perco». E é isto que acontece com as frases ou palavras que encontro em ‘todas’ as ruas e que logo perco, por serem apagadas ou destruídas, exceto na minha memória e nas fotografias em que as capto e que, a partir de agora, convosco compartilho.

Centrando-me apenas no espaço do poema, creio poder afirmar que, quando alguém está apaixonado, acaba por ver essa pessoa a todo o momento – nas memórias do que juntos viveram, nas recordações do que partilharam, no cheiro do perfume de alguém que passa, no olhar distraído de outro alguém, no som dos passos apressados, numa buzina que apita. Mas, por serem apenas memórias, acabam por desvanecer-se e, na realidade, em todas as ruas acabamos por perder aquilo que encontrámos. Porque, no fundo, as recordações vivem só na nossa mente…

Maria Eugénia Leitão

Jornal Sol, 21 de abril de 2016