Ébola

A palavra tornou-se dolorosa; pesada de ameaças e irradiante de tristezas. Todos os dias a lemos e todos os dias tememos o que significa; esperando a boa notícia que acabará por varrê-la gradualmente dos jornais e noticiários.

Lembrei-me de que desmontar o medo, como se desmonta um brinquedo, ajuda a espantá-lo. Comecei pela palavra, e fui dar com um rio longínquo e com outra palavra, esta um pouco estranha, surpreendente, grega, mas sobretudo… que também ao nosso Tejo e ao nosso Douro podemos emprestar.

Falo da palavra “potamónimo”, que designa os nomes próprios dos rios. Um “potamónimo” é, portanto, um nome de rio. Vem a palavra da composição do grego “pótamos”, que quer dizer rio, e “-ónimo” que significa “nome”. Embora, nesta associação, a palavra seja pouco usada na nossa língua portuguesa, há outra associação em que “pótamos” reluz com mais frequência. Quando se junta a “hippo”, que significa “cavalo”, “pótamos” ajuda a criar o sentido de “cavalo do rio”, ou seja, hipopótamo.

Pergunto-me se terá que ver também com “pótamos” a palavra “mota” ou “amota”, que significa uma barreira construída contra a subida de um rio. Segundo alguns dicionários,”mota” é mesmo como se diz “rio” em Timor. Bem sei: a ordem das sílabas é diferente. Mas há precisamente um fenómeno, chamado metátese, que corresponde à inversão de sílabas durante a evolução de palavras. Segundo os dicionários consultados, no entanto, a origem desta palavra, com este significado, é incerta ou controversa. Deixemo-la.

Voltemos ao Ébola, que é um potamónimo por ser o nome de um rio congolês. Na esperança de encontrar os significados contidos no nome, procurei alguma explicação sobre a nomeação do rio. Por outras palavras: que quererá dizer “ébola” para que alguém tenha usado a palavra na nomeação do rio na atual República Democrática do Congo?

ebola

Ébola

O francês é atualmente a língua oficial, mas há referências a diversas línguas nacionais: o lingala, o quicongo, o kituba, o suaíli e o tshiluba. A primeira, lingala, tem origem noutra língua falada ao longo do rio Congo de que o rio “Ébola” é afluente. Não consegui apurar ainda se o nome do rio, que é agora nome de vírus, se relaciona com esta língua, mas descobri, no caminho da procura, que o lingala fez diversos empréstimos à língua portuguesa. Dou-vos um exemplo curioso: “matabisi”, nesta língua, significa “mata-bicho”, que é como se designa “pequeno-almoço”, na África de língua portuguesa.

Pronto, já chega desta viagem sobre os ombros ora temíveis do ébola.

Ângela Santos