Do “infinitivo só”

Caro Alberto Gonçalves, sociólogo e colunista da revista Sábado

Não senhor, não está sozinho* a importar-se com esta moda do “Dizer que” para início de conversas, especialmente as de circunstância: discursos, debates etc. Por exemplo, assim: “Dizer que é muito importante continuarmos a bater-nos pela correção da língua portuguesa.” Mas não são só os jornalistas, sabe? Há também políticos, executivos, dirigentes…  enfim, toda a pessoa que é amiga de discursar tende ultimamente a seguir a dita moda do “infinitivo só”.

Estou convencida de que a história começou com uma construção muito perfeitinha, como “Gostaria de dizer que…”, “Importa declarar que…”, “Quero agradecer aos…” e depois alguém, fosse por preguiça, fosse por nervosismo, fosse por achar a entoação grandiloquente, deixou cair o primeiro verbo. Ficou então “(Gostaria de) Dizer que…”, “(Importa) Declarar que…”, “(Quero) Agradecer aos…”

E a pessoa, na plateia, que discursava a seguir achou graça à elisão e repetiu-a, e assim foi andando o “infinitivo só”, de boca em boca, até aos jornalistas na televisão, onde o caro Alberto Gonçalves o encontrou, importando-se.

Mas nós importamo-nos consigo; nós e todos os que se habituaram a pensar no sentido que faz cada palavra dita depois de outra palavra dita.

 

Ângela Santos

*Alberto Gonçalves escreveu sobre este assunto na Sábado de 10 de julho de 2014, p. 98.