Debaixo de fogo

Esta expressão, bem visível numa parede, incomoda-me, ao passar, por sentir que pode estar a avisar-me de que estou «debaixo de fogo», pelo que devo ter cuidado; ou que, pelo contrário, é o seu autor que se encontra em tal situação e, portanto me pede ajuda.

Numa situação ou na outra, o perigo paira no ar e o fogo que está a ser disparado pode acertar em qualquer um, pode fazer de qualquer pessoa uma vítima.

Estar «debaixo de fogo» é encontrar-se sob o escrutínio dos outros, à mercê dos seus comentários e das suas afirmações, tantas vezes erradas ou maliciosas; é ser vítima da vontade coletiva ou da vontade individual de pessoas que conhecemos ou que nunca sequer vimos.

E este é um fardo demasiado pesado para um único indivíduo. Daí que ser diferente seja tão difícil, e exija coragem e muita capacidade para se ignorar os olhares ou comentários dos outros. As pessoas que têm a coragem de pintar o cabelo de azul, de vestir calças amarelas fluorescentes, de usar brincos enormes que alargam o furo da orelha, de exibir coloridas e chamativas tatuagens são naturalmente alvo de olhares – sejam eles reprovadores, de admiração ou tão simplesmente olhares de quem repara. Mas, exatamente como afirmava Drummond de Andrade: «em vão me tento explicar, os muros são surdos»!

Efetivamente, é difícil escapar ao «julgamento» dos outros, às suas considerações, porque nunca ouve quem não quer ouvir. E também porque qualquer um de nós pode sentir que não tem de ser sujeito a julgamento por pessoas que não conhece ou cuja opinião não valoriza.

Estar «debaixo de fogo» impõe, pois, um stress adicional, exige que se esteja em constante alerta, procurando ignorar ou corresponder às expetativas de quem dispara esse fogo, que, muitas vezes, é disparado em diversas direções, atingindo diferentes alvos, e outras vezes é disparado sem alvo certo, sendo quase como um tiro no escuro…

Maria Eugénia Leitão
Escrito em parceria com o jornal Sol