#BLM – Que diria Frederick Douglass, escritor e abolicionista do séc. XIX?

A Letrário Translation Services promove diariamente a comunicação entre pessoas de todo o mundo através da tradução. Também por esta razão, acredita no respeito incondicional pelo outro. É por isso natural que nos tenham tocado profundamente os acontecimentos recentes nos Estados Unidos, em que um ato de brutalidade policial captado em vídeo tornou evidente o racismo estrutural existente; ali e em várias partes do mundo.

Acreditando na importância do conhecimento, a Letrário recorda, neste artigo, alguns antecedentes da atual situação nos EUA, que também resume. Tenta igualmente imaginar como se posicionaria o escritor e abolicionista Frederick Douglass relativamente ao movimento Black Lives Matter dos dias de hoje.

 

A estranha fruta do sul

Em 1939, a artista de jazz Billie Holiday temia pela sua carreira, mas ainda assim cantava sobre as árvores do sul que davam uma estranha fruta: os corpos negros que a brisa do sul fazia balançar.

Holiday referia-se aos linchamentos que se tornaram mais comuns após a Guerra Civil Americana, durante o período da Reconstrução, e que começaram a diminuir apenas na década de 1930, tendo, no entanto, durado até pelo menos 1981, com a morte de Michael Donald, às mãos do KKK.

Em 1964, Nina Simone, artista de jazz e ativista do movimento pelos direitos civis dos negros, cantava, farta, que todos sabiam o que se passava no Mississippi.

Simone referia-se ao assassinado de Medgar Evars por parte de um membro do KKK, em 1963, e ao ato de terrorismo de supremacistas brancos, ocorrido no verão do mesmo ano: o bombardeamento da Igreja Batista da rua 16, no Alabama, devido ao qual morreram quatro crianças.

Já em 2018, Donald Glover, sob o nome de palco Childish Gambino, lançou This is America, juntamente com um videoclipe repleto de mensagens subliminares relativas às Leis de Jim Crow, que impuseram a segregação racial no sul dos EUA; à distração dos meios de comunicação; ao massacre da igreja de Charleston; à violência policial; ao encarceramento em massa; e muito mais.

«This a celly, that’s a tool»

Por exemplo, o verso «This a celly, that’s a tool», em This is America, poderá ter três sentidos. Primeiro, poderá referir-se aos telemóveis e a como são uma ferramenta utilizada para gravar os acontecimentos, por vezes, sem intervenção, o que é uma crítica à «atitude de espetador».

Segundo, «celly» poderá ser também uma cela, uma referência à crescente população prisional dos EUA, que é a maior do mundo e maioritariamente constituída por negros e latinos.

Por último, poderá referir-se a um acontecimento recorrente: a polícia matar pessoas negras desarmadas, alegando terem pensado que os telemóveis deles eram armas.

 

O que aconteceu a George Floyd e a Rayshard Brooks?

A 25 de maio de 2020, George Floyd, um homem negro de 46 anos, foi morto no estado do Minnesota, em Minneapolis. Derek Chauvin foi o polícia branco que, ajudado por três outros agentes, pressionou o pescoço de Floyd utilizando o joelho durante quase nove minutos. O motivo para este ato terá sido uma nota falsa de 20 dólares.

A situação, que foi filmada e se tornou viral na Internet, espoletou uma onda de protestos em vários estados do país e em todo o mundo, durante os quais pelo menos duas pessoas já morreram. Os protestos prosseguem e já levaram à detenção e acusação dos envolvidos. Um dos agentes, Thomas Lane, aguarda contudo julgamento em liberdade, já que pagou a fiança de 750 000 USD.

Na passada sexta-feira, outro jovem negro, Rayshard Brooks, foi morto por um agente do Departamento da Polícia de Atlanta, Garrett Rolfe, com dois tiros nas costas.

O agente foi chamado ao local por Brooks estar a dormir num carro parado. Brooks soprou o balão e o nível de álcool no sangue era de 0,108, acima do limite legal de 0,08. O agente declarou então que Brooks não estava em condições de conduzir. No vídeo, que também se tornou viral, percebe-se que, durante o processo de detenção que se seguiu, a polícia disparou contra Brooks, matando-o depois de este ter tentado usar o taser da polícia.

Muitos não acreditam que o ato de força letal tenha sido justificado, e o médico legista classificou a morte como um homicídio.

 

Que causas profundas tem este problema?

Este flagelo tem como fundo a escravatura, que foi abolida há mais de 400 anos, embora haja quem defenda ter apenas «evoluído», afetando os rendimentos, a capacidade de atuação, a justiça, o emprego, a habitação, a educação e a saúde das pessoas negras. O Ku Klux Klan é outro fator a considerar, pelo impacte que teve na forma de atuação das autoridades.

“O que aconteceu a Floyd acontece todos os dias neste país, na educação, nos serviços de saúde e em todas as áreas da vida americana. Está na hora de nos defendermos em nome de George e dizermos «tirem os joelhos dos nossos pescoços».”

Reverendo Al Sharpton no serviço fúnebre de George Floyd.

 

Como se posicionaria Frederick Douglass?

«Nenhum homem pode pôr uma corrente no tornozelo de outrem, sem acabar por ter a outra ponta à volta do seu próprio pescoço.»

Discurso na Reunião pelos Direitos Civis, 1883.

 

Frederick Douglass (1818-1895), abolicionista, escritor e estadista afroamericano, é considerado o pai do movimento pelos direitos civis nos EUA e o mais influente afroamericano do século XIX.

Douglass fugiu da escravatura a 3 de setembro de 1838, disfarçado de marinheiro negro livre, e foi bem-sucedido graças aos conhecimentos marítimos que tinha. Tentara fazê-lo dois anos antes, mas foi traído por outro escravo.

Começou a aprender a ler quando ainda era escravo, com Sophia Auld, esposa do seu senhor, mas foi predominantemente autodidata, o que é detalhado em “Aprender a ler e escrever” (1845).

O biógrafo de Douglass, Joseph W. Holley, escreveu: «ele entendeu que a luta pela libertação e pela igualdade exigia uma vigorosa, persistente e inflexível agitação». Sobre a comoção que prossegue nos EUA, é portanto provável que Douglass afirmasse:

«Sem luta, não há progresso.

Aqueles que professam a favor da liberdade mas menosprezam a agitação são homens que querem colher sem lavrar o solo; que querem chuva sem trovões nem relâmpagos; que querem o oceano sem o terrível rugido das suas muitas águas.

Esta luta pode ser moral ou física. Pode também ser moral e física, mas tem de ser uma luta.

O poder não concede nada sem uma exigência. Nunca o fez e nunca o fará.»

Discurso sobre a Emancipação de West India, 1857.

 

Dean Nelson, presidente da Fundação Frederick Douglass, acrescenta, no entanto, que Douglass entendeu ser especialmente necessário para os negros manter uma postura digna, e condena por isso as pilhagens e a destruição de propriedade que ocorreram junto dos protestos.

 

O que podemos fazer?

Assinar a petição de justiça no caso de George Floyd. Este será um bom princípio para o muito que há a fazer.

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