Atenção à “antimatéria” da linguagem

À medida que o fim do resgate pela troika se aproxima, à medida que vão sendo noticiados sinais de retoma económica, adensa-se a dúvida sobre se o governo optará por um programa cautelar subsequente ao resgate ou se preferirá uma “saída à irlandesa”. Talvez possamos contar com uma certa caraterística da linguagem para nos ajudar a adivinhar o que vai pela cabeça dos nossos governantes.

Desde que, em Davos, uma jornalista americana entrevistou o ministro Pires de Lima e lhe perguntou pela possibilidade de uma “clean exit”, a expressão “saída limpa” tornou-se alternativa à expressão “saída à irlandesa”. Mas, ao contrário desta última, a primeira tem aquilo a que gosto de chamar “antimatéria”. Ou seja, quando alguém afirma que há uma “saída limpa” deixa implicitamente dito que há uma “saída suja” ou, como dizia o Ricardo Araújo Pereira no fim de semana passado, uma “saída porca”. Ora, havendo já apenas duas possibilidades em ponderação (saída com e sem programa cautelar), se uma é considerada “limpa” (sem programa cautelar), a outra é necessariamente considerada “suja”.

Assim, se o governo, como afirmou Marcelo Rebelo de Sousa no domingo passado, já decidiu pela saída sem programa cautelar, não se coibirá de usar esta expressão (“saída limpa”) nos próximos tempos. Se, pelo contrário, estiverem ainda em aberto as duas possibilidades, é natural que o governo evite a expressão “saída limpa” para que, caso opte pelo programa cautelar, não tenha de ouvir que escolheu a “saída suja”. Isto se os membros do governo que falam aos órgãos de comunicação social tiverem em atenção a importância da “antimatéria” da linguagem, como é provável que tenham.

Ângela Santos