As Tréguas de Natal: Uma Noite Feliz Sem Barreiras Linguísticas

Terá sido Confúcio a dizer que «quando se compreender e apreciar melhor a música e a bondade, não haverá guerra». A Letrário concorda.

Neste artigo, contamos-lhe a história da origem da muito conhecida canção de Natal Noite Feliz! Noite Feliz!, e também lhe contamos a história de uma noite de Natal em que a paz, embora improvável, aconteceu. Uma noite em que se ouviu cantar Noite Feliz! Noite Feliz! Soldados inimigos, e falantes de línguas diferentes, deixaram para trás conflitos e barreiras linguísticas, e cantaram juntos a uma só voz.

A origem da canção que quebrou barreiras linguísticas

A canção Noite Feliz, no seu original alemão Stille Nacht, foi escrita em 1816 pelo austríaco Joseph Mohr, vigário da paróquia de Oberndorf. Mais tarde, foi musicada pelo organista da mesma paróquia, Franz Xaver Gruber. No entanto, quando uma inundação fluvial danificou o órgão da igreja durante uma cerimónia, na véspera de Natal de 1818, Gruber teve de arranjar a melodia para duas vozes e guitarra.

A mágica canção, calma e santa, rapidamente se tornou conhecida, tendo sido incluída em espetáculos de famílias itinerantes a que assistiam os reis Francisco I da Áustria e Alexandre I da Rússia. 

O manuscrito da canção perdeu-se e o contributo de Mohr acabou por ser esquecido. Mesmo a identidade do compositor, apesar de conhecida, foi muitas vezes confundida com a de Mozart ou Beethoven, aos quais a melodia foi atribuída frequentemente. Pelo menos até 1955, data em que se encontrou outro manuscrito da canção, escrito pela mão de Mohr, onde também se atribuía a música a Gruber.

As traduções da canção sem barreiras linguísticas

A versão inglesa, atualmente mais conhecida, atribuiu-se ao padre John Freeman Young, que se baseou em apenas três dos seis versos originais de Mohr.

A versão portuguesa, que difere mais do original alemão, é atribuída ao frade franciscano Pedro Sinzig, nascido na Áustria, mas ordenado no Brasil.

Compare as versões desta popular canção, considerada Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO:

Alemão

Inglês

Português

Stille Nacht, heilige Nacht,
Alles schläft; einsam wacht
Nur das traute hochheilige Paar.
Holder Knabe im lockigen Haar1,
Schlaf in himmlischer Ruh!
Schlaf in himmlischer Ruh!

Stille Nacht, heilige Nacht,
Hirten erst kundgemacht
Durch der Engel Halleluja,
Tönt es laut von fern und nah:
Christ, der Retter ist da!
Christ, der Retter ist da!

Stille Nacht, heilige Nacht,
Gottes Sohn, o wie lacht
Lieb’ aus deinem göttlichen Mund2,
Da uns schlägt die rettende Stund’.
Christ, in deiner Geburt!
Christ, in deiner Geburt!

1. Lovely boy with curly hair

2. O how love laughs from your divine mouth

Silent night, holy night,
All is calm, all is bright
Round yon virgin mother and child.
Holy infant, so tender and mild,
Sleep in heavenly peace,
Sleep in heavenly peace.

Silent night, holy night,
Shepherds quake at the sight;
Glories stream from heaven afar,
Heavenly hosts sing Alleluia!
Christ the Savior is born,
Christ the Savior is born!

Silent night, holy night,
Son of God, love’s pure light;
Radiant beams from thy holy face
With the dawn of redeeming grace,
Jesus, Lord, at thy birth,
Jesus, Lord, at thy birth.

Noite feliz! Noite feliz!
O Senhor, Deus de amor,
pobrezinho nasceu em Belém.
Eis, na lapa, Jesus, nosso bem!
Dorme em paz, ó Jesus!
Dorme em paz, ó Jesus!

Noite feliz! Noite feliz!
Eis que, no ar, vêm cantar
aos pastores os anjos dos céus,
anunciando a chegada de Deus,
de Jesus Salvador!
de Jesus Salvador!

Noite feliz! Noite feliz!
Ó, Jesus, Deus da luz,
quão afável é o teu coração
que quiseste nascer nosso irmão
e a nós todos salvar!
e a nós todos salvar!

A Primeira Guerra Mundial e as tréguas momentâneas numa noite de natal sem barreiras linguísticas

As tréguas de Natal de 1914 são relembradas muitas vezes como um momento simbólico de paz durante uma guerra marcada por extrema violência. Aconteceu na Frente Ocidental com um grande número de soldados britânicos, alemães e franceses, que tiveram necessidade de reparar as trincheiras e de enterrar os mortos. 

Inicialmente receosos, por pisarem terra de ninguém (território não ocupado, por medo ou incerteza), os soldados de ambos os lados acabaram por se encontrar, partilhar comida, bebida, tabaco, doces e lembranças, e até tirar fotografias e jogar futebol nalgumas partes da Frente.

Numa série educativa da BBC, intitulada I Was There: The Great War Interviews, onde podemos assistir a  entrevistas filmadas na década de 1960, Henry Williamson, que tinha apenas 17 anos quando se juntou ao Exército Territorial Britânico, conta o que aconteceu durante as tréguas naquele Natal.

Williamson e a sua brigada tinham sido incumbidos de derrubar alguns postes na neve na chamada terra de ninguém, a apenas 50 metros dos alemães. Estavam, por isso, muito ansiosos e avançaram tentando não fazer barulho com as botas no chão gelado. Mas esperavam ouvir tiros a qualquer instante. Para espanto de todos, nada disto aconteceu. Em duas horas, estavam descontraidamente a rir e a conversar no território alemão.

Williamson recorda uma conversa com um soldado alemão, que o fez compreender serem iguais os sentimentos espoletados pela guerra em todo o lado. A verdade é que todos lutavam pelo seu país e pela liberdade, e todos sentiam ter Deus do lado deles. Para evitar uma discussão entre as tropas, o soldado alemão disse: «camarada inglês, não nos zanguemos no dia de Natal».

Por volta das 23 h, os soldados ingleses viram os alemães montar uma árvore de Natal nas trincheiras, e, em seguida, viram-nos cantar a Noite Feliz, que reconheceram imediatamente. Juntaram-se a eles cantando também na sua língua, ignorando todas as barreiras linguísticas que pudessem existir

A reação dos oficiais superiores às tréguas foi um pouco contraditória. Alguns proibiram o envolvimento dos soldados, outros aproveitaram-nas para fazer manutenção e enterrar os mortos. Mas todos queriam o recomeço da guerra, pois temiam que a confraternização afetasse o espírito de combate. 

Infelizmente, as tréguas não se tornaram tradição. No ano seguinte, verificaram-se poucos cessar-fogos e, em 1916, a guerra já se tinha tornado demasiado violenta para amizades momentâneas…

Descobriu mais informações sobre este importante acontecimento histórico? Partilhe a sua opinião com a Letrário e diga-nos qual é a sua versão favorita deste cântico natalício!

Se precisar de quebrar barreiras linguísticas contacte-nos, teremos todo o prazer em ajudar.