Alfarroba e gafanhoto

De vez em quando, chega-nos uma novidade sobre deficiências de tradução da Bíblia, que nos tiram o chão que sempre julgámos conhecer. Ele é a virgem que afinal era jovem; ele é a cauda do camelo que afinal era a corda de uma rede de pesca…

Pois há dias ofereceram-me um livro sobre árvores* que veio trazer-me mais uma destas novidades. Aparentemente, quando, no Evangelho segundo S. Mateus, se diz que São João Batista se alimentava “de gafanhotos e mel silvestre”, quando andou a pregar no deserto da Judeia, afinal não era bem assim. Segundo a minha fonte, em grego antigo, usava-se a mesma palavra para designar “gafanhoto” e “alfarroba”; tal como atualmente se usa a mesma palavra locust para designar o inseto e o fruto. S. João terá, portanto, recorrido a vagens de alfarroba para se alimentar, e não a gafanhotos. Pergunto-me se os ingleses que também chamam à alfarroba St. John’s bread terão desfeito o equívoco há mais tempo do que nós…

 

*António Bagão Félix, Trinta Árvores em Discurso Directo, Porto: Porto Editora, 2013, pp. 19-20

 

Ângela Santos