A origem das expressões

Se nas conversas que tem costuma ouvir algo engraçado e pensa «qual será a origem desta expressão popular?», está no sítio certo.

Neste artigo, a Letrário compila 12 interessantes expressões populares e as origens que conseguimos apurar para cada uma, passando por tempos antigos, por várias mitologias, pela Roma Antiga e até pela terminologia náutica… mas sempre pela história.

Vamos começar?

 

  1. «Ter o rei na barriga»

Quando uma rainha engravidava, era preciso ter todo o cuidado com ela, não lhe exigindo esforços, satisfazendo-lhe todos os desejos, não lhe dando más notícias e dando-lhe uma boa alimentação, ou seja, fazendo dela o centro das atenções.

E porquê?

Porque ela trazia o rei na barriga, literalmente, e perder o bebé seria perder o futuro rei. Em alguns casos, seria até perder a independência nacional.

Por isso, se há pessoas que reclamam para si todos os cuidados e atenções, dizemos que até parece terem o rei na barriga.

 

  1. «Bicho de sete cabeças»

Esta expressão tem origem na mitologia grega, precisamente na lenda da Hidra de Lerna, que tinha corpo de dragão e várias cabeças de serpente, que se regeneravam e duplicavam. Conta a lenda que a criatura foi criada por Hera, para matar Hércules, que a destruiu no segundo trabalho que realizou, de um total de doze.

 

  1. «Farinha do mesmo saco»

A expressão tem origem no latim homines sunt ejusdem farinae («homens da mesma farinha»), e é utilizada para generalizar um comportamento reprovável.

A metáfora faz referência ao facto de a farinha de boa qualidade ser posta em sacos separados, para não ser confundida com a de qualidade inferior. Assim, utilizar a expressão «farinha do mesmo saco» é insinuar que os bons andam com os bons, enquanto os maus preferem a companhia dos maus.

Honoré de Balzac (1799-1850), prolífico escritor francês, utilizava frequentemente a expressão nos romances que escrevia: Ce sont des gens de la même farine.

 

  1. «Ter ouvidos de tísico»

Durante a Segunda Guerra Mundial, muitos jovens sofriam de uma doença denominada tísica, que corresponde à tuberculose. Graças ao aparecimento de antibióticos, foi possível combater esta doença de forma mais eficaz.

As pessoas que sofrem de tuberculose pulmonar, a forma mais mortífera, tornam-se muito sensíveis, e havia relatos de uma notável capacidade auditiva; daí a expressão.

No entanto, ao contrário do que se pensa, a tuberculose não melhora a audição, podendo mesmo fazer o contrário. Por vezes, como é o caso na meningite tuberculosa, o doente corre o risco de perder a capacidade auditiva totalmente.

É também possível que a expressão se deva ao facto de, por a tuberculose ser uma doença letal e muito contagiosa, os doentes estarem sempre muito atentos às conversas alheias e a comentários desagradáveis, optando frequentemente pelo isolamento.

 

  1. «Não perceber patavina»

Nos primeiros anos da era cristã, os romanos chamavam Patavium à atual cidade de Pádua. Assim, «patavino» será não apenas o natural de Pádua, mas tudo o que lhe diz respeito.

Pádua foi a terra natal do orador e historiógrafo Tito Lívio. A grandiosa obra que escreveu, Ab Urbe condita («desde a fundação da Cidade»), destacou-se não apenas pelo contributo para o conhecimento da História, mas também pela qualidade estilística.

Todavia, «As Décadas» foram acusadas de incluírem demasiadas «patavinitas», isto é, palavras ou construções regionais típicas do dialeto da cidade em que o historiógrafo vivia. Assim, «não saber patavina» significava não compreender nada do que Lívio escrevera, por ser muito idiossincrático.

 

  1. «Hermeticamente selado»

Nos dicionários, o significado do termo «hermético» não é um só, encontrando-se ali possibilidades como «encimado por um hermes», «completamente fechado (de modo que nem o ar possa entrar, nem o fumo ou vapor sair)», «difícil de compreender» e ainda «relativo à alquimia».

É possível que a origem da expressão remonte a Hermes Trismegisto, que pode ter sido um verdadeiro savant ou até a personificação de uma série de escritores. Há quem o identifique com Hermes, o deus grego, e com Thoth ou Tuti, dos egípcios, que era o deus da Lua. Os egípcios viam-no como o deus da sabedoria, das letras e da contagem do tempo.

É, por isso, devido ao grande respeito tido a Hermes pelos velhos alquimistas que os escritos químicos eram chamados «herméticos» e que a expressão «hermeticamente selado» continua a ser utilizada para designar o fecho de um recipiente de vidro por via da fusão, ao modo dos manipuladores químicos.

Encontramos a mesma raiz nos remédios herméticos de Paracelso e na maçonaria hermética da Idade Média.

 

  1. «Erro crasso»

Na Roma Antiga, o poder dos generais era dividido por três pessoas. No primeiro dos triunviratos (60 a. C. – 53 a. C.), tínhamos Júlio César, Pompeu e Crasso. Este último foi incumbido de atacar um pequeno povo chamado Partos. Confiante na vitória, resolveu abandonar todas as formações e técnicas romanas e simplesmente atacar. Além disso, escolheu um caminho estreito e de pouca visibilidade…

Mesmo em menor número, os Partos conseguiram vencer os romanos, e o general que liderava as tropas foi um dos primeiros a cair. Desde então, sempre que algo tem tudo para correr bem, mas alguém comete um erro estúpido, dizemos tratar-se de um «erro crasso».

 

  1. «Lágrimas de crocodilo»

A origem desta expressão, que faz referência a um choro fingido, deve-se à forte pressão contra o céu da boca exercida pelos crocodilos ao ingerirem uma presa, o que resulta na contração das glândulas lacrimais dos animais.

Diz-se ainda que, nas margens do rio Nilo, na antiguidade, os crocodilos choravam e faziam ruidosas manifestações de desespero para atrair as pessoas que por ali passavam e apelar assim à piedade – as que caiam nesta armadilha eram devoradas.

Na ópera de Henry Purcell intitulada Dido e Eneias, de 1688, Eneias diz a Dido que tem de partir para fundar Roma na Península Itálica, ao que ela responde «nas fatais margens do Nilo, / Chora o traiçoeiro crocodilo».

 

  1. «Resvés Campo de Ourique»

Esta expressão, que significa «mesmo à justa» ou «por um triz», remonta a 1755, quando o terramoto que assolou Lisboa destruiu a cidade até à zona de Campo de Ourique, que ficou intacta. A partir daí, a expressão generalizou-se.

 

  1. «Meter o Rossio na Betesga»

Esta é uma expressão proverbial com a qual se pretende denotar a dificuldade de fazer alguma coisa ou de pôr algo num espaço muito reduzido. O nome «betesga» designa também uma ruazinha estreita geralmente sem saída, uma viela ou um beco.

Explica Andreia Vale em Puxar a Brasa à Nossa Sardinha (2015): «A Rua da Betesga é uma rua estreita que liga, na parte sul, a Praça do Rossio à Praça da Figueira. Aberta ao trânsito, tem duas faixas, ambas no mesmo sentido, e apenas sobra espaço para os estreitos passeios destinados aos peões. Ora, meter uma praça grandiosa como o Rossio, com o Teatro D. Maria II, a estátua de D. Pedro IV, duas fontes, o Café Nicola e a Pastelaria Suíça (só a título de exemplo), numa nesga como a Betesga seria, claro, impossível (…)».

 

  1. «Andar à toa»

O verbo nesta expressão pode ser substituído por muitos outros, denotando andar sem destino, ou fazer algo sem reflexão.

A toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está «à toa» não tem leme nem rumo, sendo guiado pelo navio que o reboca.

Além disso, convém não esquecer que o adjetivo se escreve com hífen («à-toa»), tanto se adotarmos o AO90, quanto se não o fizermos, porque este acordo ortográfico não afeta estas palavras com hífen. Quanto à locução adverbial «à toa», escreve-se sem hífen e também não sofreu alteração com o AO90.

 

  1. «Primeiro estranha-se, depois entranha-se»

Este foi o famoso slogan elaborado por Fernando Pessoa ao serviço da agência Hora para a Coca-Cola, na década de 1920. No entanto, acabou por ficar apenas no papel, por razões políticas.

A Coca-Cola não tirou partido deste momento de inspiração do poeta porque a mesma rapidamente ficou interdita no nosso país, por alegadamente se tratar de um produto suscetível de criar habituação. Só em Julho de 1977 foi finalmente permitida, em garrafas de vidro de 20 cl.

Contudo, a criatividade do poeta ficou para a posterioridade, e tornou-se um dos slogans publicitários mais famosos do século XX, usado em diversas ocasiões até hoje.

 

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