A minha história com Thomas Mann

Como não domino a língua alemã, dependo de traduções para ler as obras dos autores alemães. Ao contrário do que aconteceu com Musil, que li na magnífica tradução de João Barrento, a minha leitura de Thomas Mann tem sido bastante… ensombrecida.

Comecei com a tradução da Montanha Mágica (Livros do Brasil, sem data). Note-se que esta tentativa tem já bastantes anos, mas não é anterior à conformação profissional que me leva a reparar em todas as gralhas e outras irregularidades ortográficas, sintáticas e lógicas do que leio. Da Montanha Mágica acabei por desistir, devido ao ataque permanente do ruído que estes defeitos causam e que acabaram por impedir o prazer da leitura.

Passados anos, ao deambular por uma livraria poisei a atenção num livro onde o nome de Thomas Mann procura chamar a atenção. “Contos” dizia-se  por baixo do nome e, ao reparar na ficha técnica, percebi que se tratava de tradução recente (Bertrand Editora, 2013). Resolvi tentar fazer as pazes com o destino que não me permitira uma leitura memorável da Montanha Mágica. Infelizmente… também não foi com este livro que consegui chegar a Thomas Mann. Lutei com a tradução até à página 72, pelo que não posso ser acusada de não ter feito uma verdadeira tentativa. Mas o ataque de ruído venceu-me. Deixem-me dar-vos alguns exemplos.

“Isto disse ele cerca de dois meses antes da sua morte.” (p.50)

“… cujas suíças brancas e escassas adejavam sobre o seu gibão cinzento.” (p.52)

Aqui, o ruído vem de um excesso que, tanto na escrita como na oralidade, se tornou numa terrível moda em Portugal: a moda dos possessivos supérfluos. Reparem que, tanto num caso como no outro, “sua” e “seu” podem eliminar-se sem nenhuma perda.

“e, aos poucos e poucos, consegui” (p. 46)

Neste caso, confundem-se duas formas diferentes de dizer o mesmo: “aos poucos” e “a pouco e pouco”.

“Bem, mas que géneros de desejos é que eu havia de ter?” (p. 48)

Além de não se encontrar o tempo verbal que se esperaria (“haveria”), a palavra “géneros”, menos usada entre nós do que “tipos”, faz-nos pensar na pertinência do plural. Talvez o original pudesse esclarecer sobre a inclinação do autor e a melhor forma de lhe dar expressão.

“consegui… uma certa destreza na mudança de harmonias grosseiras e sem melodia, em que eu punha neste místico torvelinho tanta expressão quanto era alguma vez possível.” (p. 46)

Neste caso, ficamos na dúvida sobre o “lugar” onde o sujeito punha a “destreza”. A preposição “em” aponta para a “mudança”, mas a mesma preposição contraída com demonstrativo “neste” aponta para “torvelinho”. O leitor fica confuso…

“Ele troçava de todo o mundo, mas manifestava, contudo, além disso, um desvelado interesse pelo comércio das madeiras…” (p. 48)

Além de duas adversativas concorrentes (uma bastaria), a ideia de acréscimo (“além disso”) encontra-se em posição que torna a frase mais confusa. Depois de alguma reflexão, percebe-se que a ideia pretendida é: “…troçava, mas também manifestava interesse”.

“da mesma forma mecânica, ordenada e tranquila com que, durante este inverno, a minha vida decorreu e que… esteve em conflito” (p. 41)

É agramatical a construção “a forma com que a vida decorreu”. Além de não se compreender o que esteve em conflito: a forma? Não faz sentido…

Concluo esta lista de exemplos com dois dos que mais e fizeram ter vontade de saber o suficiente da língua alemã para procurar e compreender o original, já que a tradução, embora sintaticamente correta, apresenta uma lógica difícil de seguir.

“Um amor infeliz é uma atitude que não é má.” (p.70)

“De facto, no fim de tudo e como saída digna, está então o asco que a vida… me provoca.” (p. 41)

Os contos de Thomas Mann foram por fim devolvidos à estante, já que sempre me falta a coragem para medidas mais drásticas. Fica a esperança de um dia encontrar boa tradução deste autor, pelo qual mantenho uma curiosidade infelizmente intacta.

Ângela Santos