A língua e o ambiente

No primeiro discurso enquanto presidente-eleito, Joe Biden afirmou que «daria ouvidos à ciência» na luta contra as alterações climáticas. Mas de que fala a ciência? E de que forma o faz?

Neste artigo sobre a língua e o ambiente, a Letrário falar-lhe-á de algumas palavras e expressões envolvidas na defesa do ambiente, e discutirá o papel da linguagem na nossa perceção da natureza, assim como a forma que os meios de comunicação têm ao alcance para nos levarem a tomar mais consciência do que se passa.

 

A crise climática e a língua

No dia 28 de novembro de 2019, o Parlamento Europeu declarou existir uma situação de emergência climática e ambiental, rejeitando uma proposta para que se utilizasse a expressão «urgência climática» em vez de «emergência».

Numa outra votação, o Parlamento aprovou também uma resolução da Conferência da ONU sobre as Alterações Climáticas (COP25) que expressa a intenção europeia de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) em 55 % até 2030, de modo a atingir a neutralidade de emissões líquidas em 2050.

Ursula von der Leyen pediu ainda à Comissão Europeia, aos Estados-membros e a «todos os intervenientes à escala mundial» que tomassem «urgentemente as medidas concretas necessárias para combater e conter esta ameaça», referindo-se à atual crise climática.

Na sequência desta atividade das instituições, é normal que novos termos ambientais surjam, à medida que a ameaça se torne cada vez mais real. Tomemos o exemplo dos Dicionários Oxford, que designaram climate emergency, «emergência climática», a Palavra do Ano de 2019, selecionando-a de uma lista relativa ao ambiente que também inclui, entre outros, os termos climate denial, «negação climática», eco-anxiety, «eco-ansiedade», e flight shame «vergonha de voar». Confira as respetivas definições abaixo.

 

Climate emergency («emergência climática»)

«Uma situação em que é necessária uma ação urgente para reduzir ou travar as alterações climáticas e evitar os resultantes danos ambientais, potencialmente irreversíveis».

Climate denial («negação climática»)

«Rejeição da tese segundo a qual as alterações climáticas causadas pela ação do Homem estão a ocorrer ou que constituam uma ameaça significativa para o bem-estar humano e a civilização».

Eco-anxiety («eco-ansiedade»)

«Preocupação extrema com os danos atuais e futuros para o ambiente, decorrentes da ação do Homem e das alterações climáticas».

Flight shame («vergonha de voar»)

«Relutância em viajar de avião, ou desconforto em fazê-lo, devido à emissão prejudicial de gases com efeito de estufa, e de outros poluentes, pelas aeronaves».

 

Slogans e hashtags

Além destes termos, há cada vez mais slogans e hashtags alusivos à crise climática e à defesa do ambiente.

É o caso da hashtag #MoveTheDate que se torna viral em cada ano. Refere-se ao Earth Overshoot Day, ou Dia da Sobrecarga da Terra, isto é, o dia em que o planeta entra em «défice ecológico». Este ano, devido aos efeitos positivos que a pandemia surtiu no ambiente, esgotámos os recursos anuais da Terra quase um mês mais tarde do que no ano passado, a 22 de agosto. Em 2019, fizemo-lo a 29 de julho.

 

«Alterações climáticas» vs «aquecimento global» Qual a diferença?

Michael Halliday, linguista funcionalista já falecido, afirmava que a ideia de o ser humano ser especial, à parte do resto do mundo natural, é inerente à própria gramática antropocêntrica das nossas línguas, que normalizam e enaltecem o crescimento ilimitado, assim como a exploração dos recursos naturais pelo Homem.

Apontava o exemplo elementar de utilizarmos pronomes neutros (p. ex.: it, em inglês) para nos referirmos a recursos, que, geralmente, integram também a categoria de substantivos uncountable, isto é, que não se alteram em número (p. ex. wood, «madeira»), como se aquilo que descrevem fosse inesgotável.

De modo geral, o «aquecimento global» é um merónimo (parte) das «alterações climáticas», que é o holónimo (todo).

O termo «aquecimento global» refere-se apenas ao aumento da temperatura da superfície terrestre, enquanto o termo «alterações climáticas» inclui o aquecimento e, por exemplo, os efeitos secundários dos glaciares que derretem, das tempestades fortes, e das secas, que são cada vez mais frequentes.

Resumindo, o aquecimento global é um «sintoma» das alterações climáticas, causadas pela ação do Homem.

No entanto, vários ecolinguistas afirmam que a expressão «alterações climáticas» leva a que as pessoas pensem, devido ao inerente pressuposto linguístico, que as alterações se dão por si mesmas, sem um agente causador.

Em 2014, a Universidade de Yale publicou um estudo em linha com esta tese, segundo o qual as pessoas têm mais medo do «aquecimento global» do que das «alterações climáticas».

 

Em outubro, o mar de Laptev ainda não tinha congelado

Em outubro, foi noticiado que, pela primeira vez desde que há registo, o mar de Laptev ainda não tinha congelado. Este é considerado o «local de nascimento» do gelo do Ártico.

O atraso no congelamento anual do mar de Laptev deve-se a um calor anormalmente prolongado no norte da Rússia, e à intrusão das águas atlânticas, afirmam os especialistas em clima, que alertam para os efeitos que poderão alargar-se a toda a região polar.

As temperaturas oceânicas na área subiram recentemente para mais de 5 ºC acima da média, na sequência de uma onda de calor sem precedentes e da redução invulgarmente precoce do gelo marinho do inverno passado.

Quanto mais tarde o gelo se formar no mar de Laptev, mais fino será. Assim, deverá derreter antes de chegar ao Estreito de Fram, o que implica a existência de menos nutrientes no plâncton do Ártico, que terá portanto uma menor capacidade de atração do dióxido de carbono da atmosfera, contribuindo para um degelo das calotas polares cada vez mais célere.

Walt Meier, cientista de investigação sénior do Centro Nacional de Dados sobre a Neve e o Gelo dos Estados Unidos, disse ao The Guardian que «a maior parte do antigo gelo do Ártico está a desaparecer, deixando apenas gelo sazonal mais fino; à escala global, a espessura média é metade da que era nos anos 80», e acrescentou que «a tendência para a descida deverá continuar até à chegada do primeiro verão sem gelo no Ártico; os dados e modelos indicam que tal ocorrerá entre 2030 e 2050 – trata-se de quando acontecerá, e não se acontecerá».

 

Uma nova perspetiva

Atento à necessidade de um melhor e mais transparente enquadramento, em maio de 2019, o The Guardian reviu o respetivo guia de estilo, que agora prefere, por exemplo, «emergência ou crise climática» a «alterações climáticas», «vida selvagem» a «biodiversidade» e «populações piscícolas» a «recursos piscícolas». O jornal também noticiou os esforços da advogada Polly Higgins, que defendia que o «ecocídio» deveria ser considerado um crime à escala internacional, tal como o genocídio.

Também em maio de 2019, a ativista sueca Greta Thunberg apelou a que mudássemos a terminologia escrevendo o seguinte tweet: «Estamos em 2019. Será que podemos parar de dizer “alterações climáticas” e chamar as coisas pelos nomes: “colapso climático”, “crise climática”, “emergência climática”, “colapso ecológico”, “crise ecológica” e “emergência ecológica”?»

Num artigo de 2017 para o The Guardian, o ativista George Monbiot refere igualmente que se chamássemos às áreas protegidas «áreas de maravilha natural», fomentaríamos o amor que as pessoas têm pela natureza.

 

Gostou de descobrir mais sobre como a língua influencia a nossa perceção? Recorra aos serviços da Letrário, e descanse, pois utilizaremos as palavras adequadas para transmitir a sua mensagem; saiba como fazê-lo aqui, e partilhe connosco as suas palavras favoritas para expressar o apreço que tem pela natureza!