Entrevistas à Diáspora | Samuel Martins

Samuel_MartinsSamuel Martins é Deputy Director – Strategy, Planning & Management at Bill & Melinda Gates Foundation nos E.U.A.

 

Como se sente visto por ser português, no seu contexto de trabalho e nos diversos contextos sociais? Acha que há uma ideia feita sobre os Portugueses nos Estados Unidos? E os Portugueses que aí vivem têm uma opinião comum sobre os americanos?

No meu atual trabalho temos uma grande diversidade de nacionalidades, pelo que ser português é algo simplesmente normal. O ser português tem mais impacto nos contextos sociais, mas não de uma forma negativa. Somos apenas pessoas de um país diferente.

Aqui na zona de Seattle a maior parte dos emigrantes portugueses são de «primeira geração» e vieram para aqui para embarcar num desafio profissional diferente (na Amazon, Microsoft etc.). Existe uma pequena comunidade mais antiga de portugueses que emigraram há mais tempo para trabalhar na pesca, mas estão já dispersos. Desta forma, penso que não há aqui uma ideia feita sobre os Portugueses. Mas os Estados Unidos são um país muito grande e diverso, pelo que outras zonas serão certamente diferentes, nomeadamente as áreas na Costa Este com grandes comunidades portuguesas.

Penso que os Portugueses não têm uma opinião comum sobre os americanos, mas há obviamente caraterísticas que se destacam da cultura portuguesa, tanto do ponto de vista profissional (p. ex. maior eficiência, maior competitividade) como pessoal (p. ex. mais abertos, mas menos próximos).

 

O que estranhou mais na mudança de vida e de cultura? Aconteceu-lhe algum percalço, durante a fase de adaptação?

Do ponto de vista profissional, estranhei inicialmente o foco em minimizar o tempo no escritório. Em Portugal, é normal parar 15 a 20 minutos para café e uma conversa, ou 1 h para almoço. Aqui, mais tempo no escritório é tipicamente visto como «menos tempo para mim e para a minha família». Daí, as interações sociais no escritório serem normalmente mais curtas.

Gosto sempre de traduzir literalmente alguns dizeres ou provérbios portugueses e isso nem sempre corre bem! 🙂 Tive alguns percalços com isso! O último foi numa reunião em que disse que não me sentava no topo da mesa para não pagar a conta. Só reparei que tinha feito asneira quando as pessoas começaram a olhar para mim de forma estranha 🙂

 

Os Portugueses falam muito da saudade da culinária, das pessoas, mesmo dos lugares ou da luz. Mas a saudade de falar português existe? 

No meu caso não existe porque falamos sempre português em casa (a minha esposa é também portuguesa). E temos encontros regulares com outros Portugueses, pelo que não faltam oportunidades para praticarmos a nossa língua.

No entanto, todos estes momentos são de carácter social. Confesso ter saudades (e já algumas dificuldades) em falar português mais formal / profissional.

 

Imagino que se sinta tão à vontade a falar português como inglês, mas há algum assunto em que só fale mesmo em português?

A nossa vida familiar é toda em português e penso que teria dificuldades em mudar para inglês. No contexto profissional, contudo, já me sinto mais à vontade com o inglês do que com o português. Acho que é normal, dado que já passaram cinco anos. Espero que seja.

 

Ainda sonha em Português? E ainda pensa em Português?

Depende do contexto, mas sonho e penso em ambas as línguas, dependendo do ambiente onde estou. Por exemplo, no trabalho, penso sempre em inglês. Em casa, em Português.

 

Alguma vez usou o português para que não o entendessem? Pode contar-nos a situação?

Faço isso com alguma regularidade. Mais recentemente quando preciso que o meu filho Afonso se porte bem 🙂

 

Já pensou sobre a educação linguística dos seus filhos? Ou vai deixar que as coisas aconteçam?

Sim, tivemos dois filhos aqui nos Estados Unidos. Decidimos desde o início que iríamos falar Português em casa e deixá-los aprender Inglês na escola. O Afonso foi para a pré-escola há uns meses e já fala e percebe ambas as línguas. A minha esposa Cláudia é também bilingue e não temos dúvidas de que é o melhor para os nossos filhos.

 

Os seus filhos já falam? A primeira palavra chegou em que língua?

O Afonso tem três anos e meio e já fala as duas línguas, como disse anteriormente. Todas as primeiras palavras foram em Português, porque o Afonso só foi para a escola recentemente.

A Laura tem seis meses e ainda não fala. “Não fala porque não tem dentes”, como diz o Afonso.

 

Sente diferenças na evolução da aprendizagem de ambas as línguas?

Acho que é totalmente dependente do número de horas que as crianças passam expostas a cada língua. Claro que a conjugação dos verbos é mais complexa em Português, pelo que já estamos à espera de que essa componente seja mais lenta.

O que notámos foi que o Afonso teve vários períodos de gaguez durante os primeiros meses de exposição às duas línguas em paralelo. Claramente o cérebro demorava mais tempo a encontrar a palavra certa.

Hoje em dia é habitual o Afonso misturar as duas línguas numa frase. Há uns dias conjugou um verbo inglês em português: “quero drinkar leite”. Achámos muita piada e sabemos que tudo vai convergir daqui a uns tempos.

 

Ter um filho numa terra alheia alterou a sua relação com a terra onde está?

Sim. Penso que, daqui a muitos anos, voltaremos a Seattle (bom, talvez ainda aqui estejamos) para ver onde eles nasceram e cresceram. Também passeamos muito aqui na zona (montanhas, lagos, florestas etc.), pelo que desenvolvemos um carinho especial por esta terra, literalmente!

 

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