10 armadilhas a evitar nos seus textos em português

Ninguém sabe bem como começam, mas as modas linguísticas acabam por se instalar e alastrar extamente como as modas de roupa e acessórios: de repente toda a gente diz e escreve uma palavra ou uma expressão sem pensar bem no que está a dizer, sem ponderar que aquilo que está a dizer pode não fazer sentido, mesmo que soe familiar, porque, precisamente, muita gente anda a dizer o mesmo. Mais tarde ou mais cedo, acabamos por ouvi-las a dirigentes e gente influente ou, pior, acabamos por lê-las em textos destas pessoas. É neste momento que estas modas linguísticas se tornam armadilhas para todos os profissionais que têm na língua portuguesa um instrumento de trabalho.

Deixamos aqui uma lista de 10 modas linguísticas que são armadilhas a evitar por quem queira manter os seus textos em português isentos de incorreções.

  1. «Não me faz sentido». Esta construção não é gramatical nem… faz sentido. Se quer exprimir a sua opinião sobre algo que não lhe parece fazer sentido diga: «não faz sentido para mim» ou «para mim, não faz sentido».
  2. «Acessibilidades» em vez de «acessos»; «visualizar» em vez de «ver»; «rececionar» em vez de «receber» etc. É humano… Às vezes, procura-se tornar solene o discurso usando alternativas vocabulares mais pomposas. O resultado é, na maior parte dos casos, um discurso menos claro, muitas vezes ridículo e frequentemente incorreto. «Acessibilidade», por exemplo, é a qualidade ou caráter do que é acessível; não deveria confundir-se com «acesso».  Se existe uma alternativa vocabular simples, prefira-a.
  3. «Tenho uma reunião ao meio dia e meio». Não… é possível que tenha uma reunião ao meio dia e meia (hora), mas é pouco provável que tenha uma reunião ao meio dia e meio (dia), até porque na sua agenda não encontra tal mítico momento.
  4. «Vamos endereçar esta questão». «Endereçar» em português significa enviar para um determinado endereço. Não significa «enfrentar», nem «tratar», como o verbo «address» em inglês, de onde é provável que esta armadilha tenha vindo. Evite, portanto, usar o verbo «endereçar» com este sentido, que não tem em português.
  5. « 11 anos atrás, já cá estava». Não pode dizer, nem certamente diz «há 11 anos à frente», pois não? A razão é que o verbo «haver» já indica que o tempo passou e, portanto, o «atrás» é supérfluo. Esqueça-o, basta dizer «Há 11 anos, já cá estava». E a propósito de «bastar»…
  6. «Basta só dizer que sim». O verbo «bastar» já significa que é suficiente, pelo que o «só» está a mais. Veja como não se perde nenhum sentido quando se diz apenas: «Basta dizer que sim»
  7. «Indepentemente de ser viável ou não, faz-se». É mais um caso de excesso desnecessário. Pois se é «independentemente» de ser viável, será tanto no caso de ser viável quanto no caso de não ser viável. Logo… o «ou não» está a mais. Bastará escrever: «Independentemente de ser viável, faz-se».
  8. «Vamos meter mais carros elétricos a circular.» O verbo «meter» implica a colocação dentro de um recipiente que tenha parte interior e parte exterior, como uma gaveta, por exemplo. Nem sempre é, portanto, sinónimo de «colocar».
  9. «Os CEOs foram chamados para uma reunião.» As siglas e acrónimos nunca têm plural (nem pontos). Portanto, deverá sempre escrever «Os CEO foram chamados para uma reunião».
  10. «Estes textos normalmente são sempre revistos». Repare: «normalmente» significa que, embora por regra os textos sejam revistos, há exceções; ou seja… nem sempre são revistos. Não pode, portanto, dizer, logo a seguir, que são sempre revistos. Ou são «normalmente» ou são «sempre» revistos. As duas circunstâncias são contraditórias, pelo que não podem ocorrer em simultâneo.

Esperamos que este «mapa» de armadilhas ajude a evitá-las nos seus textos e nas suas traduções em português.

Se necessitar de ajuda com a edição de textos em português poderá sempre contar com a ajuda da Letrário.